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The Electronic Journal of Pediatric
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SÍNDROMES DIARRÉICAS CONGÊNITAS
Adriana Ferrão Rodrigues1& Ulysses Fagundes Neto2 Disciplina de Gastroenterologia 1Pós Graduanda
Introdução Embora apresentem quadro clínico com fator principal semelhante – a presença de diarréia ao nascimento – as síndromes diarréicas congênitas compreendem diversas entidades nosológicas com etiologia e fisiopatologia diferentes. São vários os mecanismos que podem levar o recém-nascido a apresentar diarréia, e estas patologias necessitam de diagnóstico precoce, pois podem levar a um grave atraso do crescimento ou mesmo à morte. Sua etiologia varia desde deficiências enzimáticas das dissacaridases, levando à má absorção e diarréia osmótica – no caso da deficiência congênita da lactase e maltase – quando na exposição aos seus substratos, até alterações no transporte dos nutrientes no intestino, como na má-absorção de monossacarídeos, alteração da absorção de sódio e cloro, de gorduras (abetalipoproteinemia) e má-absorção biliar primária. Também encontramos presença de diarréia logo ao nascimento nas epiteliopatias – doença de inclusão microvilositária e enteropatia em tufos. Assim, o conhecimento destas diversas patologias (que são pouco freqüentes) contribui para seu diagnóstico e tratamento, evitando danos irreparáveis à saúde do paciente.
A - Deficiências congênitas das dissacaridases Deficiências congênitas das dissacaridases são alterações geneticamente determinadas e parecem seguir as leis da herança autossômica recessiva, variando também de acordo com a etnia. Em 2000, Kolho e Savilahti encontraram diferenças nos valores de normalidade entre crianças de origem africana e finlandesa1. Em cada população, a determinação de padrões de normalidade2 para essas enzimas permite estabelecer parâmetros de deficiência em diversas patologias. Este grupo enzimático compreende o complexo lactase-florizina-hidrolase, ou beta-glicosidase, chamado, habitualmente, apenas como lactase. Os complexos sacarase-isomaltase e maltase-glicoamilase, ambos denominados, genericamente, de maltase e trehalase são enzimas que degradam a trealose (açúcar de certos cogumelos e insetos, de consumo mínimo em nosso meio). Dentre estas enzimas, as duas primeiras são as possíveis causadoras de diarréia logo no primeiro dia de vida de uma criança.
A.1 - Deficiência congênita de lactase O leite é, na alimentação humana, a principal fonte de nutrientes na infância. Desde a antigüidade, há relatos egípcios e babilônicos sobre o aleitamento materno e amas de leite. Hipócrates reconheceu a amamentação como “dieta higiênica”, sendo esta uma prática usual durante o cristianismo. Na idade moderna, com a industrialização, surgiram fórmulas artificiais do uso do leite, técnicas de armazenagem e assepsia. Durante o século XX, houve o aumento dos estudos sobre a composição do leite materno, multiplicando a variedade de ofertas de produtos lácteos que apresentam a adição de compostos diversos na tentativa de enriquecer o leite não natural. Por estudá-lo, estas pesquisas também expressam a superioridade do leite materno3. Tal evolução fez com que, aos poucos, o leite fosse inserido não só na dieta infantil como também na alimentação de todas as faixas etárias. Como conseqüência, foram descritas alterações na digestão e absorção de seu dissacarídeo (lactose) através do tempo. A lactase (complexo enzimático lactase-florizina-hidrolase), tem como principal função degradar a lactose em glicose e galactose no topo das vilosidades intestinais, nos enterócitos maduros4. Por este motivo, é mais sensível à lesões intestinais, sendo causa freqüente de diarréia e de dor abdominal5,6,7. Seu aparecimento dá-se por volta da 10ª semana de gestação, com aumento de 30% para 70% de atividade durante o período de 35 e 38 semanas – daí prematuros apresentarem maior intolerância à lactose7. Deficiência congênita de lactase (DCL) foi descrita, pela primeira vez, em 1959 por Holzel et al que observaram a associação da DCL com a diarréia precoce e ácida, desidratação e acidose metabólica desde a ingestão de leite humano e animal. Estudos demonstram atividade normal de outras dissacaridases nesses pacientes e a total ausência de lactase em um mesmo segmento intestinal5,6,7,8,9,10. Esta patologia, extremamente rara, é de herança autossômica recessiva localizada no braço longo do cromossoma 2 (2q21). Na Finlândia, onde foi descrita pela primeira vez, ela é relativamente comum. Lá, no período de 1966 a 1998, haviam sido relatados 42 casos9. O diagnóstico definitivo é realizado através de biopsia da mucosa intestinal, na qual é observada a deficiência da lactase por técnicas de imunofluorescência. O tratamento consiste na retirada do dissacarídeo da dieta, uma vez que o fenômeno de indução de atividade da enzima pela dieta não existe – ao contrário do que acontece com a sacarase4,6,7. Em 1958, Durand descreveu um quadro de intolerância grave à lactose, porém associada a lactosúria, aminoacidúria e acidose renal, podendo somar ao quadro alterações visuais como a catarata. 6,7,9. Esta patologia não deve ser confundida com a DCL, pois é, aparentemente, causada por alteração na permeabilidade gástrica, já que seu principal sintoma, o vômito, desaparece quando o leite é infundido diretamente no duodeno com auxílio de sonda7. Outra alteração genética da lactase – não relacionada à diarréia congênita – é a deficiência ontogênica de lactase ou hipolactasia primária do adulto HPA6,7,9,10. Nesta, não há a persistência dos níveis de lactase da infância. A persistência de níveis elevados de lactase no epitélio intestinal humano, após o desmame, ocorreu, provavelmente, por mutação genética inicialmente em caucasianos, favorecendo as populações que utilizavam o leite como suplemento alimentar mesmo após a infância6,7,9. Vale ressaltar que a permanência de níveis elevados de lactose a partir dos 2, 3 anos de vida é a exceção. A prevalência da HPA é elevada entre árabes, habitantes do sul da Itália, esquimós, negros americanos, índios, orientais, africanos e, provavelmente, brasileiros. Suíços, italianos do norte, franceses, americanos brancos, suecos, dinamarqueses, alemães e ingleses seguem com atividade enzimática da lactase sem alteração durante a vida adulta. A.2-Deficiência congênita de maltase O complexo enzimático sacarase-isomaltase é responsável por toda a atividade da sacarase, praticamente toda a atividade da isomaltase e, aproximadamente, 80% da atividade da maltase. Os 20% restantes da atividade da maltase são de responsabilidade do complexo de enzimas maltase-glicoamilase que é também responsável por toda a atividade da glicoamilase. Esta, por sua vez, é importante na digestão de polissacarídeos em lactentes, mais precisamente entre 4 e 6 meses de idade, quando a atividade das amilases pancreáticas ainda não são suficientes. Desta forma, estes dois complexos enzimáticos são responsáveis pela digestão de todos os derivados do amido e da sacarose7. O complexo maltase-glicomaltase é mais resistente às agressões da mucosa além de distribuir-se de forma homogênea sobre todo o intestino delgado. A boa tolerância aos amiláceos e polímeros de glicose, nos quadros diarréicos, não fazem parte da gênese das diarréias congênitas. Observou-se a alteração da atividade em crianças com sintomas gastrointestinais, conforme Karnsakul et al demonstraram, em 2002, ao estudar o material de biópsia endoscópica de 44 crianças com dispepsia no qual encontraram deficiência de maltase-glicoamilase em 12 e baixa universal de dissacaridases em 8 crianças11. Esta associação entre deficiências das dissacaridases pode ser geneticamente determinada 12. Nichols et al, em estudo multicêntrico envolvendo crianças com desnutrição e atrofia vilositária em diversos países, demonstraram, em 2000, que essa baixa atividade enzimática pode estar relacionada com a atrofia, pois, após a volta do epitélio às suas características normais, o déficit enzimático não foi significante13. O complexo sacarase-isomaltase também se distribui por todo o delgado, porém em proporções decrescentes no íleo. Em quadros de ausência ou diminuição da atividade desta enzima, frente à ingestão de sacarose, observamos a má absorção desse dissacarídeo o que leva ao quadro de diarréia ácida, distensão e dor abdominal. Estas manifestações clínicas podem estar presente já no primeiro dia de vida se a sacarose for ofertada como nutriente ao recém nascido, quer seja através do uso de chás e leites adoçados com sacarose, ou de frutas e medicamentos na forma de xaropes que contenham este açúcar. Seguida da deficiência ontogênica de lactase, a deficiência enzimática do complexo sacarase-isomaltase é a segunda mais freqüente na população em geral. Este complexo, que situa-se na borda em escova dos enterócitos, é formado pela ligação iônica das duas enzimas. Sua formação no enterócito dá-se no retículo endoplasmático e no aparelho de Golgi onde sofre glicosilação e alcança a membrana. Na membrana, é clivado em sacarase e isomaltase - provavelmente por peptidases pancreáticas na luz intestinal. Podemos obter basicamente três formas de apresentação dos sintomas, de acordo com o sítio da alteração: seja ele no complexo de Golgi e retículo endoplasmático rugoso, nas microvilosidades do epitélio ou na falta de glicosilação deste complexo enzimático. A cada uma destas alterações, a proporção da atividade enzimática varia. A sacarase, porém, sofre decréscimo em todas4,14,15,16. Esta deficiência enzimática determinada de forma autossômica recessiva6,7,14,15,16 cujo gene controlador situa-se no braço longo do cromossoma 3(3q22-q26), tem como forma mais freqüente a substituição de prolina por glutamina na sub-unidade sacarase15. Ainda hoje, novas mutações estão sendo descritas, provavelmente pela variedade clínica da deficiência14. Sua descrição foi, em princípio, feita em esquimós da Groelândia, Canadá e índios canadenses4,6 e estima-se sua prevalência entre 0,1% e 5% da população mundial4,7. A sua apresentação clínica varia de acordo com a alteração enzimática presente e com a quantidade de açúcar ingerido. A variabilidade das manifestações clínicas faz com que essa deficiência não só apareça em diferentes faixas etárias como também mimetize outras patologias que cursam com a diarréia, dor e distensão abdominal – muitas vezes de forma intermitente, como a síndrome do intestino irritável10. Essa variação clínica faz com que testes de tolerância à sacarose (como testes respiratórios e curva glicêmica) sejam importantes. No entanto, é a detecção da atividade da enzima no epitélio o padrão ouro para o diagnóstico 4,6,7,11,13,15. O tratamento dessa deficiência enzimática dá-se, inicialmente, pela retirada da sacarose da dieta, utilizando lactose e/ou frutose como fontes alternativas de açúcar6,7. O uso de enzimas provenientes de outra origem, como do Saccharomyces cerevisiae, mostrou melhor absorção do açúcar e conseqüente redução dos sintomas6,16.
B- Intolerância congênita aos monossacarídeos O estudo da intolerância aos monossacarídeos como causa de diarréia crônica teve início em 1962 com Lindquist et al. Eles estudaram recém nascidos com diarréia e observaram neles uma alteração na absorção de glicose e galactose17. A partir de então, a intolerância aos monossacarídeos foi subdividida em primária e secundária, adquirida e transitória, descrita, pela primeira vez, por Burke e Danks7,18 e é, freqüentemente, associada à síndromes diarréicas7,18,19,20. A intolerância aos monossacarídeos pode ser determinada geneticamente não somente para a glicose e a galactose, mas também para a frutose. Esta última tem sua forma de transporte pela mucosa intestinal por meio de difusão facilitada, diferentemente dos outros dois principais monossacarídeos que sofrem absorção ativa. A intolerância à frutose, ainda em estudo, não parece estar diretamente ligada a alterações moleculares de transporte e sim à expressão ou atividade ou ainda à regulação genética deste4,21, não sendo causadora de diarréia congênita. B.1 - Má-absorção congênita de glicose-galactoseTrata-se de uma síndrome familiar, de herança autossômica recessiva, que cursa com diarréia de início precoce. O gene responsável pelo não funcionamento do transporte de glicose e galactose na borda em escova dos enterócitos situa-se no braço longo do cromossomo 22 (22q13.1) conforme observado em 8 crianças árabes de uma mesma família22. É caracterizada por um defeito primário de absorção dos dois monossacarídeos, cujo carregador de sódio na membrana está ausente ou não operante. Dessa forma, a não absorção de glicose e galactose eleva a osmolaridade do lumen intestinal o que resulta em aumento da secreção de água e não reabsorção, levando à diarréia crônica grave, desnutrição, desidratação hiperosmolar, acidose metabólica, glicosúria moderada intermitente e alteração nos testes de absorção oral de glicose10. Observa-se normalidade do epitélio, vilos e atividade das dissacaridases nesta alteração da absorção de monossacarídeos com exceção dos episódios diarréicos nos quais estes parâmetros podem estar alterados7,19,22,23. O diagnóstico – diferentemente das outras alterações da absorção de carboidratos já vistas até agora – dá-se pelo teste de sobrecarga oral da glicose/galactose, com aumento do volume fecal após a ingestão e aumento do hidrogênio no ar expirado sem elevação da glicemia7,19. O tratamento, em princípio, visa medidas de suporte, uma vez que o quadro apresentado pelo paciente é de desidratação grave. A reposição hidro-eletrolítica deve ser feita com soluções parenterais ou soluções orais (estas últimas isentas de glicose e galactose). Inicialmente, a reposição de carboidratos deve ser feita por via parenteral, sendo aos poucos, substituídos por frutose e amiláceos. A tentativa da reintrodução de sacarose da dieta pode ser feita após um período de 8 a 12 meses, de acordo com o limite de tolerância pessoal, explicada pela grande atividade fermentativa colônica, que apesar de não alterar a absorção da glicose, elimina o mecanismo osmótico7,19. C - Defeitos congênitos no transporte intestinal de mineraisDentre os defeitos de transporte intestinal de minerais, apenas dois cursam com diarréia já ao nascimento: cloridorréia congênita ou cloridorréia familiar e diarréia de sódio congênita. C.1 - Cloridorréia congênitaDescrita inicialmente por Darrow e Gamble et al, em 1945, esta patologia hereditária, recessiva, determinada pelo gene no cromossomo 7 (7q22-q31.1), era descrita como fezes líquidas, volumosas com grande quantidade de cloro, presente nos primeiros dias de vida. Observava-se, ainda, a presença de polidrâminio, relacionada, provavelmente, à diarréia intra-útero. Como tratamento eles usaram cloreto de potássio. Sua incidência é estimada em cerca de 7.6 para cada 100.000 nascidos vivos no Kwait, sendo detectada, também, com maior freqüência em populações da Finlândia e Polônia. O quadro clínico destes recém nascidos inclui distensão abdominal, diarréia crônica com hiponatremia, hipocalemia, hipocloremia e alcalose metabólica, retardo do crescimento e desenvolvimento19,24. Este último deve-se à não absorção de cloro pela bomba de cloro-bicarbonato. A acidose gerada no intestino, por sua vez, impede a entrada do sódio pela bomba sódio-hidrogênio, estimulando, assim, a excreção de potássio. Há, então, a alcalinização do conteúdo intestinal e maior concentração de cloro neste meio, prejudicando a absorção de cloreto de sódio no intestino. Ao nascimento, além das manifestações já descritas, pode também ocorrer ascite. A diarréia é volumosa e o recém nascido pode perder até o equivalente a 10% de seu peso de nascimento em volume fecal no primeiro dia de vida. A terapia consiste na reposição dos eletrólitos perdidos e na correção dos distúrbios hidro-eletrolíticos do quadro agudo. O diagnóstico precoce impede o déficit de crescimento e desenvolvimento. As crianças adquirem continência fecal de forma um pouco mais tardia e têm desenvolvimento normal19,24,25,26,27.
C.2 - Diarréia de sódio congênita Foi descrita, inicialmente, de forma simultânea por Holmberg e Perheentupa e Booth et al, em 1985. Na diarréia de sódio congênita, a alteração é a mesma da cloridorréia congênita, porém somente parte da segunda bomba de transporte está mal operante19,28. O gene responsável por essa alteração está presente no cromossoma 2. Sua localização ainda não está definida28. Essa enfermidade é descrita em associação com a atresia de coanas, observada na Suécia, Alemanha e Holanda28. O quadro clínico também cursa com alterações intra-útero, como polidrâminio, diarréia ao nascimento e distensão abdominal. O tratamento é feito por reposição oral de eletrólitos e o paciente segue sua vida social, normalmente, sem maiores problemas.
D - Deficiências congênitas do transporte de gordura D.1 - AbetalipoproteinemiaAbetalipoproteinemia, assim como outras patologias, está relacionada com a absorção de gorduras. A alteração estrutural está presente na apolipoproteina beta (apo b) que é precursora das lipoproteínas do plasma. Entre elas estão incluídos os quilomícrons e as proteínas de muito baixa densidade que são transportados por triglicerídeos sendo, então, catabolizadas para proteínas de baixa densidade19. O plasma dos pacientes com abetalipoproteinemia não tem quilomícrons nem seus derivados lipoproteicos. Heterozigotos, para esta patologia, têm níveis séricos, destas lipoproteínas, abaixo do normal. Gorduras da dieta sob a forma de micelas no tubo digestivo são absorvidas como ácidos graxos livres e monoglicerídeos para dentro do enterócito através de receptores específicos. Componentes maiores como ésteres de colesterol e triacilgliceróis são transportados pelo sistema porta. Após entrada nos enterócitos, ácidos graxos livres e monoglicerídeos são novamente re-esterificados para triglicerídeos. Quilomícrons formam-se a partir da apolipoproteina b-48 e da apolipoproteína a. Na abetalipoproteinemia de herança recessiva não há formação de quilomícrons19. Abetalipoproteinemia é uma doença descrita em 12 países, incluindo caucasianos, afro-americanos, árabes, asiáticos e predomina no sexo masculino, embora seja de herança autossômica recessiva. Ausência de quilomícron e seus derivados é notada no plasma de seus portadores assim como a deficiência de enzimas lipossolúveis (A, D, E, K). Diarréia, vômitos e má-absorção de gorduras são os principais sintomas observados logo na primeira semana de vida. Decorrentes destes sintomas, observa-se, também, déficits neurológicos e musculares. O paciente desenvolve aversão a gorduras. Acantocitose, retinite pigmentar, cegueira noturna e retinopatia estão, provavelmente, ligadas à avitaminose A19,29. O diagnóstico é feito pela dosagem dos lipídeos plasmáticos, anemia intensa e auto-hemólise, provavelmente por falta de vitamina E nessas células. A biópsia de intestino delgado demonstra aumento dos acantócitos no epitélio, de 50% para 70% em proporção às demais células intestinais. A microscopia eletrônica possibilita a visualização de gotículas de gordura nos enterócitos e complexos de Golgi vazios. O tratamento consiste na retirada destes ácidos graxos da dieta, substituindo-os por triglicerídeos de cadeia média que têm outra via de absorção. Suplementação de vitaminas lipossolúveis e monitorização hepática pelo risco de fibrose também fazem parte do tratamento.
D.2 - Doença de retenção de quilomícron (Doença de Anderson)Trata-se de uma alteração na absorção de gorduras, também relacionada à abetalipoproteína, que é transportada de forma correta para o fígado, porém não para o intestino. O quadro clínico e o tratamento são semelhantes aos da abetalipoproteinemia19,30.
E- Má absorção primária de ácidos biliares Má absorção primária de ácidos biliares é uma rara causadora de alteração intestinal, que leva à diarréia congênita devido à interrupção do ciclo entero-hepático de ácidos biliares e redução dos níveis plasmáticos de colesterol. Em 1978 e 1982, Heubi et al descreveram os dois primeiros casos desta patologia. A diarréia, nestes casos, apareceu no segundo dia de vida e tornou-se crônica. As crianças evoluíram com anasarca, hepatomegalia e eritema nas nádegas. O volume diarréico apresentava-se aumentado e o coeficiente de absorção de gorduras inferior a 50%. Para excluir outras causas, realizaram-se biópsias hepáticas (encontrado grau moderado de esteatose) e enterais e testes de tolerância à glicose e galactose. A excreção de ácidos biliares estava aumentada como nas ressecções intestinais importantes. O tratamento consistiu na suplementação da dieta com triglicerídeos de cadeia média, exclusão dos de cadeia longa e suplementação de zinco. É uma doença de herança autossômica recessiva e heterozigotos não apresentam sintomas. A ausência do gene afetado resulta em inibição do taurocolato, que tem por função transportar os ácidos biliares para dentro do enterócito19,31. Um carregador semelhante é encontrado no hepatócito. Diarréia relacionada aos ácidos biliares responde bem à colestiramina. O transporte alterado e vesículas no epitélio são bem vistos quando comparados com um epitélio normal19. Alteração de motilidade intestinal e insuficiência pancreática podem estar envolvidas na doença. O prognóstico não é restrito. Há casos, porém em que a colestase encontrada torna-se tão importante que leva à necessidade de realizar transplante hepático.
F- Epiteliopatias Basicamente, são duas as alterações do epitélio intestinal que cursam com síndromes diarréicas crônicas e precoces: a doença de inclusão microvilositária e a enteropatia em tufos, também chamada de displasia epitelial intestinal19,32,33,34.
F.1 - Doença de inclusão microvilositária Davidson et al 35 descreveram a alteração epitelial, pela primeira vez, com o nome de atrofia vilositária hipoplásica primária. Observou-se um prognóstico sombrio, nesses casos, pela deficiência universal de absorção de nutrientes. Trata-se de uma doença de herança autossômica recessiva, relatada em crianças de origem caucasiana, árabe e asiática7 e está relacionada ao polidrâminio durante gestação36. Caracteriza-se pelo achado de inclusão intracitoplasmática de microvilosidades em seu interior, sintetizadas no retículo endoplasmático rugoso, processadas e montadas no aparelho de Golgi e tranportadas à membrana do enterócito através de uma longa cadeia de vesículas. Causa diarréia grave, secretora e não responsiva à qualquer tratamento já ao nascimento e, algumas vezes é associada à hipocondroplasia. Seus portadores, na maioria das vezes, morrem até o segundo semestre da vida. Há um único caso registrado de sobrevivência até os cinco anos de idade com o uso de nutrição parenteral total37,38,39. Alguns estudos demonstram que a alteração estrutural desta patologia está na formação do citoesqueleto do enterócito, envolvendo a miosina, que pode, assim, servir de base para estudos futuros em relação ao seu tratamento definitivo7. O quadro clínico dá-se já ao nascimento, com diarréia profusa, com presença de muco (que não cessa ao jejum), de pH neutro e altos valores de sódio e cloro7. Em alguns casos, a partir do segundo mês de vida, o quadro torna- -se mais leve, possibilitando, inclusive, algumas formas de alimentação oral. À microscopia eletrônica de varredura, são observadas reduções nas vilosidades entéricas do intestino grosso e delgado e a presença das inclusões microvilositárias. As células do topo das vilosidades são as mais afetadas. Nelas, observa-se um desarranjo dos enterócitos, com protrusão de alguns e um manto de citoplasma (extensão destes) em direção ao lumen. Dentro das células, observam-se, também, vesículas secretoras, corpos vesiculares e corpos autofágicos com remanescentes microvilositários em seu interior. As demais células intestinais, as células de Paneth e as neuroendócrinas estão preservadas. O diagnóstico dá-se pelo quadro clínico e achados de microscopia eletrônica. Atualmente, o tratamento baseia-se em nutrição parenteral total permanente sem benefícios com o uso de medicamentos. O transplante intestinal é a única tentativa proposta para controlar a doença, apresentando resultados positivos40. F.2 - Enteropatia em tufos (tufting enteropathy)Trata-se de uma alteração intestinal descrita, em 1994, por Reifen et al4 e conhecida, até então, como displasia intestinal. Seu diagnóstico é feito pela biópsia intestinal de recém nascidos na qual a doença de inclusão microvilositária foi descartada32,33,34. A lesão primordial desta patologia parece estar na membrana, com a presença de “tufos” de extrusão celular dos enterócitos, alterando assim a relação entre paredes de enterócitos vizinhos, desestruturando suas ligações por meio dos desmossomas. Dessa forma, o aspecto em que esta mucosa se encontra é semelhante ao da epidermólise bolhosa, com destacamento das células entre si e com sua matriz basal. Sua prevalência é alta na ilha de Gozo, nos arredores de Malta devido à consagüinidade mais freqüente nesta população. A ascendência desta população, por sua vez, é de povos árabes que povoaram a região há cerca de mil anos. Pela sua semelhança com a epidermólise bolhosa, estudos vêm sendo realizados para a detecção do gene associado a essa enteropatia34. O quadro clínico é de diarréia semelhante à doença de inclusão microvilositária, afetando principalmente o intestino grosso, mas também porções do delgado. Podem ser encontrados quadros de grave refluxo gastroesofágico associado. O tratamento é feito com nutrição parenteral total permanente e a alternativa, atual, é a de transplante de intestino. ConclusãoAs síndromes diarréicas congênitas, embora raras, devem sempre ser levadas em consideração quando têm início no período de recém-nascido. O diagnóstico específico da deficiência digestiva é, muitas vezes, de difícil elucidação, necessitando de uma acurada observação clínica e o uso de recursos laboratoriais apropriados. Referências Bibliográficas
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