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Gasto Energético Mariana de Lima Costa1; Patrícia da Graça Leite Speridião2; Ulysses Fagundes Neto3 1Nutricionista especializanda da Disciplina
de Gastroenterologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo-
Escola Paulista de Medicina; Necessidades Energéticas Os primeiros anos do início do século passado foram caracterizados por uma série de estudos em calorimetria humana 2 e a compreensão e a avaliação das necessidades energéticas em seres humanos foi intensificada pelo advento da calorimetria indireta 8. Conceito de Energia Em suma, a energia é definida como a capacidade de realizar trabalho e tem como unidade de medição, em termos de sistema métrico, o joule (J). Em Nutrição, a energia é quantificada através da caloria (cal) que tem por definição a unidade de energia que faz aumentar a temperatura de um grama de água de 14,5º. para 15,5º. 9. Uma vez que, na prática, tanto o J como a cal são micro unidades, nutricionistas utilizam seus múltiplos, o quilo joule (KJ) e a quilocaloria (Kcal), como termos de medição de energia substitutivos. Para se converter quilocalorias em quilojoules, basta multiplicar quilocalorias por 4,2, que é o fator de conversão recomendado pelo Comitê em Nomenclatura da União Internacional de Ciências Nutricionais 2. Na Tabela 1 estão os equivalentes energéticos mais utilizados 1. Tabela 1. Unidades de Energia e Equivalências de Energia Utilizadas em Nutrição.
Energia Nutricional O organismo necessita do fornecimento constante de energia para que possa utilizá-la de acordo com as suas funções. Esta energia provém dos macro-nutrientes, adquiridos através dos alimentos consumidos, que, após digestão e absorção no trato gastrointestinal (TGI), são incorporados aos chamados pools energéticos. Estes podem fornecer energia de forma imediata para o organismo (pool energético disponível) ou armazenar energia para uso posterior pelo mesmo, na ausência de energia de forma imediata (reservatórios energéticos) 2,9. É preciso manter um estado de equilíbrio dinâmico entre estas energias - as provenientes da ingestão alimentar e as gastas pelo organismo em um determinado período de tempo - de modo a se estabelecer uma condição de regime estacionário também conhecido por Steady States 2. Assim, um equilíbrio entre estas frações promove um balanço energético neutro 4. No entanto, um desequilíbrio entre as mesmas pode promover tanto um balanço energético positivo quanto negativo. No primeiro caso, a energia adquirida é superior àquela gasta, favorecendo ao acúmulo de energia e, conseqüentemente, ao sobrepeso 5. No segundo caso, a energia adquirida é inferior àquela necessária ao gasto energético total, favorecendo a depleção energética e, conseqüentemente, à desnutrição 9. Metabolismo Energético O metabolismo energético compreende todas as vias utilizadas pelo organismo para obter e usar energia oriunda dos rompimentos das ligações químicas presentes nos nutrientes que compõem os alimentos 9. Gasto Energético Total O Gasto Energético Total (GET) equivale ao gasto de energia diário com o metabolismo basal, com o efeito térmico dos alimentos e com as atividades físicas exercidas 9. Gasto Energético Basal O Gasto Energético Basal (GEB) corresponde à quantidade de energia necessária para a manutenção das funções vitais do organismo 4,6 medida em condição padrão de jejum, repouso físico e mental em ambiente tranqüilo com controle da temperatura, iluminação e sem ruído 1,2,3. Contribui com cerca de 60-75% do GET 9. Dentre os fatores que influenciam o GEB, pode-se citar o percentual de massa magra, tecido adiposo, peso, altura, superfície corpórea, estado nutricional, idade, atividade física, clima, SNS, sexo, genética, estado fisiológico e as diversas patologias 2,4. A tabela 2 demonstra a contribuição metabólica de diversos órgãos ao metabolismo basal em um individuo entre 60-70Kg. Ressalta-se o fígado como o maior contribuinte ao GEB (26,4%) seguido do músculo esquelético (25,6%). Tabela 2. Percentual de contribuição no gasto energético basal de alguns órgãos em um indivíduo entre 60-70 Kg.
Do mesmo modo, diferentes substratos energéticos apresentam percentuais de contribuição distintos ao GEB. Substratos predominantemente protéicos participam com 17,4% enquanto aqueles glicídios e lipídicos com 41,3% 2. Gasto Energético de Repouso O Gasto Energético de Repouso (GER), muitas vezes utilizado de forma equivocada como um sinônimo do GEB corresponde ao gasto nas mesmas condições supracitadas 5 - exceto quanto ao fato de ser mensurado em estado pós absortivo 3,6. Seria equivalente ao GEB, porém é acrescido do gasto correspondente ao efeito térmico dos alimentos 1. Como as condições para as medidas do GER são menos restritas que a do GEB, a primeira tem sido mais utilizada na prática da calorimetria 9. Em geral, os autores concordam que o GER é maior que o GEB em 10-15% 7,9. Varia pouco na mesma pessoa e até 25% entre indivíduos. Efeito Térmico dos Alimentos O efeito térmico dos alimentos (ETA) ou ação dinâmica específica dos alimentos (ADEA) 4 corresponde à energia dispendida para digestão, absorção e metabolismo dos nutrientes ingeridos 2 apresentando efeito máximo em uma hora e duração entre 3-4 horas. Representa cerca de 5-15% do GET diário num indivíduo 1,5,9. Os alimentos influenciam diferentemente sobre o metabolismo energético. Substratos glicídicos e lipídicos aumentam a produção de calor em cerca de 5%. Se o alimento ingerido for composto somente por PTN, o aumento será em torno de 30%. Destarte, para uma dieta geral mista, cerca de 10% das necessidades energéticas devem ser acrescidas ao GEB 6. Isto justifica a não oferta de dietas excessivamente protéicas que conduz à depleção de energia, pelo elevado GE, principalmente em quadros de desnutrição. Ressalta-se, então, a necessidade da adequação nutricional para cada indivíduo. Em obesos, alguns autores demonstram efeito térmico dos alimentos mais baixo quando comparados a indivíduos não obesos 4,7. No entanto, as diferenças individuais no ETA só contribuem para pequenas diferenças no gasto diário de energia. Portanto, a redução da termogênese é uma explicação muito improvável para graus significativos de obesidade 5. Pesquisas também evidenciam que lactentes previamente desnutridos apresentam um grande aumento do gasto energético (~30%) após as refeições. Passada esta fase, o efeito térmico dos alimentos passa a representar somente cerca de 5% do gasto energético 6. Conclui-se então que este aumento deva-se à busca de um melhor aproveitamento dos nutrientes consumidos. Gasto Energético Decorrente da Atividade Física O gasto energético decorrente da atividade física representa o efeito térmico de qualquer movimento em exercício ou trabalho físico. Equivale em média a 15-30% do GET de um indivíduo 9. Alguns autores sugerem que se adicione 15, 25 e 40% ao GEB para cobrir as necessidades de atividades definidas como: não ativo, normalmente ativo e extremamente ativo, respectivamente. Apesar da variabilidade do custo de energia promovida pela atividade física, o efeito total desta atividade sobre o gasto de energia diário em média é muito pequeno e, como conseqüência, são necessárias práticas constantes de atividade física para afetar consideravelmente as necessidades diárias de energia 1. Por isto, tem-se demonstrado que a sua proporção no GE diário assemelha-se nas crianças obesas e não obesas 7. Propostas do Gasto Energético Total Conhecendo-se o GET, torna-se possível quantificar as necessidades nutricionais do indivíduo de modo a alcançar o crescimento normal, conforme o seu potencial genético, e obter composição corporal adequada; balancear a ingestão calórica na presença de uma patologia de base; e ser um parâmetro preciso para otimizar a terapia nutricional 4. Caso, o valor do GET seja subestimado, pode ocorrer hipoalimentação. Por sua vez, quando superestimado, pode ocorrer hiperalimentação. Ambos acarretam conseqüências já mencionadas. Calorimetria A partir do século XIX, vários calorímetros foram sendo desenvolvidos tornando-se possível registrar a magnitude da calorigênese através de métodos diretos ou indiretos. A calorimetria direta fundamenta-se na medida da quantidade de calor total produzida pelo organismo num tempo determinado 4. É o método que provê maior acurácia à realização de medidas do GE (1-2% erro) 9. O indivíduo permanece em condições basais numa câmara isolada termicamente por onde passa um fluxo de água. Assim, avaliando-se a temperatura de entrada e de saída da água que passa pelo tubo que circunda a câmara, quantifica-se o calor produzido e o gasto energético deste organismo. Apresenta como desvantagens, o alto custo e a pouca praticidade 1,2,6. A calorimetria indireta, por sua vez, tem como base a quantidade total de energia produzida a partir do oxigênio consumido na oxidação dos substratos energéticos - carboidratos, proteínas e lipídeos - e o gás carbônico que é eliminado pela respiração (Quociente Respiratório - QR) 2. Este método é próprio para pacientes que necessitam de alta precisão no cálculo do gasto energético, quando é importante se conhecer o substrato utilizado, e em pesquisas científicas 3. Também possui boa acurácia (2-5% de erro), porém inferior àquele da calorimetria direta 9. Deve-se considerar, no entanto, a simplicidade do método bem como o seu baixo custo 6,9. O inconveniente deste método é que o instrumento utilizado para a mensuração limita a atividade geral da pessoa alvo 4. Quociente Respiratório O quociente respiratório (QR) é a relação entre o dióxido de carbono produzido e o oxigênio consumido quando um determinado substrato energético é combustionado in vitro (Figura 1) 2. C6H12O6 + 6O2 = 6CO2 + 6H2O + CALOR QR = 6CO2/6O2 QR = 1 Figura 1. Oxidação da molécula de glicose. A quantidade de calor produzida por gramas de amostras puras de carboidrato equivale a 4,10 Kcal; lipídeos, a 9,45 Kcal; e proteínas, a 5,65 Kcal. Nas células, carboidratos e lipídeos são completamente oxidados a CO2 e H2O. Por isto, a energia fornecida ao corpo é similar àquela obtida na combustão (4,0 Kcal para carboidratos e 9,0 para lipídeos), considerando-se apenas a diferença do percentual absorvido destes substratos: 98% e 95%, respectivamente. Em relação às proteínas isto não é verdade 2. O grupamento amino (NH2) dos aminoácidos não é oxidado e sim excretado na urina principalmente na forma de uréia, ácido úrico e outros compostos nitrogenados. Contudo, apenas 92% deste nutriente são absorvidos pelo organismo 6,9 (Tabela 3). Tabela 3. Valor correspondente de quociente respiratório conforme nutriente metabolizado
Existem outros métodos para mensuração do GE, a citar o Registro de Freqüência Cardíaca, a Medida Simultânea do Balanço Energético e a Composição Corpórea e a Técnica da Água Duplamente Marcada 1. Um avanço significativo ocorrido nos anos 1980 foi o uso da Água Duplamente Marcada. Este método afere o GE fora do ambiente de laboratório e em indivíduos não hospitalizados. Foi a primeira técnica não invasiva que permitiu a análise precisa em indivíduos nesta condição 8. Uma vez que os métodos mais disponíveis para medir o GE impõem condições que dificultam suas aplicações nas práticas hospitalares e ambulatoriais, limitando o seu uso em estudos clínicos, foram formuladas equações de predição 9.
Equações de Predição
Em 1919, Herris e Benedict desenvolveram, a partir de dados obtidos por calorimetria indireta, a primeira equação de predição da taxa metabólica basal em homens, mulheres e crianças indicando um método alternativo mais prático, quando comparado às calorimetrias, para este cálculo. Esta fórmula considera o peso, a altura, o sexo, a idade, o fator injúria (FI), e o fator atividade (FA) 3. Não se recomenda a aplicação desta fórmula para crianças, principalmente aquelas com idade inferior a 6 anos ou com peso inferior a 25 Kg. Até hoje, as equações de Harris e Benedict são utilizadas, principalmente, na prática clínica para determinar os requerimentos energéticos de indivíduos com as mais diversas patologias. Em 1985, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a mensuração do GE e não mais sua estimativa através do consumo alimentar, conforme estava sendo realizado. Neste mesmo período, Schofield compilou os dados de taxa metabólica basal (TMB) disponíveis até então, com o objetivo de derivar equações de predição adequadas para uso internacional. Nesta equação, foram considerados o peso, o sexo e a altura. Sua preconização foi, mais tarde, adaptada e recomendada pelo Comitê da FAO/OMS para estimar as necessidades energéticas, considerando agora o peso, o sexo e a idade 8,9. Entretanto, há vários estudos que demonstram que essas equações são inadequadas para estimar a TMB por ser, a população de referência, predominantemente norte-americana, superestimando os valores do GEB em >2,2 a 13,5%, 9. Conclusão Permanece, assim, a necessidade da coleta de dados de GEB em diferentes grupos populacionais, saudáveis ou não, utilizando-se técnicas padronizadas de medição, incluindo estimativas da composição corporal, para que se possa desenvolver equações de predição a partir de um amplo banco de dados que seja construído com informações adequadas de GEB de várias partes do mundo. Referências
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March 2007 Volume 11 Number 1 |
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