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Estrutura e Função dos Carboidratos

Fernanda Ferreira Corrêa1, Patrícia Graça Leite Speridião2, Ulysses Fagundes Neto3

1 Nutricionista especializanda do Programa de Especialização em Saúde, Alimentação e Nutrição Infantil - Enfoque Multidisciplinar da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo.
2 Nutricionista da Disciplina de Gastroenterologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo.
3 Professor Titular da Disciplina de Gastroenterologia do Departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo.

Introdução

Metabolismo é a soma de muitos processos químicos em um organismo vivo, pelos quais a energia se torna disponível ao funcionamento do organismo como um todo 1. Dessa forma, o organismo depende da quebra de substâncias alimentares para obtenção de energia afim de manter seus processos vitais, ou seja, as proteínas são quebradas em aminoácidos, as gorduras em ácidos graxos e os carboidratos em monossacarídeos. Nesta revisão abordaremos a estrutura e função dos carboidratos no metabolismo.

Os carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na natureza e para muitos carboidratos, sua fórmula geral é: [C(H2O)]. Daí, o nome carboidrato ou hidrato de carbono. São moléculas que desempenham uma ampla variedade de funções, entre elas: fonte e reserva de energia, papel estrutural e matéria prima para biossíntese de outras moléculas2.

Classificação dos carboidratos

  • Monossacarídeos

São carboidratos não hidrolisáveis, sendo os mais simples monossacarídeos compostos por no mínimo 3 carbonos 2,3, por exemplo, aldoses e cetoses. Também podem ser classificados de acordo com o número de carbonos de suas moléculas, assim, as trioses são os monossacarídeos mais simples seguidos das tetroses, pentoses, hexoses, heptoses, etc 2,3. Destes, os mais importantes são as pentoses e as hexoses.

As pentoses mais importantes são: ribose, arabinose e xilose. As hexoses mais importantes são: glicose, galactose, manose e frutose2.

  • Dissacarídeos

São carboidratos ditos glicosídeos, pois são formados a partir da ligação de 2 monossacarídeos através de ligações denominadas “Ligações Glicosídicas3. A ligação glicosídica ocorre entre o carbono anomérico de um monossacarídeo e qualquer outro carbono do monossacarídeo seguinte, através de suas hidroxilas e com a saída de uma molécula de água2. O tipo de ligação glicosídica é definido pelos carbonos envolvidos e pelas configurações de suas hidroxilas2.

  • Oligossacarídeos

Oligossacarídeos são carboidratos que por hidrólise originam dois ou mais monossacarídeos, por exemplo, dissacarídeos, quando por hidrólise produzem dois monossacarídeos ou trissacarídeos, quando por hidrólise produzem três monossacarídeos (ex.: rafinose = glicose + frutose + galactose)4.

Exemplo:

Maltose - Gli α (1,4)-Gli

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Sacarose - Gli α (1,2)-β - Fru

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Lactose - Gal β (1,4)-Gli

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Celobiose - Gil β (1,4)-Gli

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  • Polissacarídeos

São os carboidratos complexos, macromoléculas formadas por milhares de unidades monossacarídicas ligadas entre si por ligações glicosídicas2, 4.

A diversidade estrutural dos polissacarídeos deve-se ao fato de neles haver grande quantidade de diferentes açúcares e derivados, como os ácidos urônicos, e porque cada açúcar pode ligar-se covalentemente a outros açúcares através de várias posições diferentes no anel3.

Os representantes dos polissacarídeos mais estudados são: amido, glicogênio, inulina e celulose, que em geral podem ser hidrolisados, convertendo-se em um componente de açúcar hexose2.

a) Amido: O amido, que produz glicose, é um glicosano; a inulina, que produz frutose, é um frutano ou frutosano. Os açúcares e o amido são produtos importantes na economia da humanidade. São muito usados para fins alimentares e farmacêuticos2.

O amido é o polissacarídeo de reserva da célula vegetal. É formado por moléculas de glicose ligadas entre si através de numerosas ligações α (1,4) e poucas ligações α (1,6), ou “pontos de ramificação” da cadeia2. Constitui 50% a 65% do peso das sementes de cereais secos, e até 80% da substância seca dos tubérculos2.

b) Glicogênio: é o polissacarídeo de reserva da célula animal. Muito semelhante ao amido, possui um número bem maior de ligações α (1,6), o que confere alto grau de ramificação à sua molécula3.

c) Inulina: é usada em meios de cultura como agente identificador fermentativo para certas bactérias e em especial em métodos laboratoriais para avaliação da função renal (“clearence de inulina”)5. È filtrada apenas pelos glomérulos, não sendo excretada nem reabsorvida pelos túbulos2.

d) Celulose: é o carboidrato mais abundante na natureza. Possui função estrutural na célula vegetal e desempenha papel importante da parede celular. Semelhante ao amido e ao glicogênio em composição, a celulose também é um polímero de glicose, mas, formada por ligações tipo β (1,4). Este tipo de ligação glicosídica confere à molécula uma estrutura espacial muito linear capaz de formar fibras insolúveis em água e não digeríveis pelo ser humano2.

Metabolismo dos carboidratos

O principal substrato oxidável quantitativamente para a maioria dos organismos é a glicose. Esta é indispensável para células e tecidos (ex.: hemácias e tecido nervoso) por constituir o único substrato que estes tecidos são capazes de oxidar para obter energia 5.

A glicose é ingerida na forma de sacarose, amido e lactose. O amido é digerido no trato digestivo até glicose, já a sacarose e lactose, originando glicose, frutose e galactose5.

  • Via glicolítica

Com a entrada de glicose nas células inicia-se a glicólise. A glicose entra na célula com a ajuda de proteínas trans-membranares, as GLUT's. Após a entrada, a glicose é fixada por uma enzima de grande importância, a hexoquinase, e no fígado como glicoquinase para formar glicose -6- fosfato (G6P), com gasto de 1 ATP. Estas enzimas são moduladoras do metabolismo, pois, elas são irreversíveis. A próxima enzima de importante papel que agirá na via glicolítica será a PFK1 (fosfofrutoquinase 1) , que transformará frutose 6 fosfato em frutose 1,6 bifosfato, com gasto de mais 1 ATP 6,7. Na formação de 1,3 bifosfoglicerato, temos a formação de 2 NADH+H+ que será de extrema importância na fosforilação oxidativa (cadeia respiratória) 6,7.

A primeira formação de ATP ocorre na transformação de 1,3 bifosfoglicerato em 3 fosfoglicerato. Depois de mais duas transformações temos a conversão de fosfoenol piruvato em piruvato formando então 2 móleculas de ATP 6,7. Após o final da via glicolítica temos um saldo total de dois ATPs.

Se o organismo estiver com uma quantidade adequada de oxigênio, o piruvato entrará na via do ciclo do ácido cítrico, já com falta de oxigênio nos músculos e o piruvato será transformado em lactato, finalizando seu papel metabólico 6,7.

  • Ciclo de Krebs

O ciclo de Krebs ou ciclo do ácido cítrico, constitui a via final comum de oxi -redução, onde compostos carboxílicos sofrem interconversão com objetivo principal de liberar elétrons que serão utilizados na cadeia respiratória. O ciclo de Krebs ocorre na matriz mitocondrial visto que suas enzimas se encontram nesse espaço utilizando co-fatores derivados do complexo B vitamínico, especialmente a coenzima A, FAD, NAD, TTP e o acido lipóico na forma de lipoamida, além de liberar CO2 e guanosina tri fosfato - GTP6,7.

O NAD e o FAD entram no ciclo oxidado e ao se ligar aos eletrons sai do ciclo reduzido3,4. Existe uma fase intermediária em que há uma descarboxilação oxidativa do piruvato transformando em acetil coa 6,7.

O piruvato mais o acetil Coa e o NAD juntam-se com o oxaloacetato para iniciar as inúmeras reações enzimáticas do ciclo de Krebs 3. O ciclo de Krebs irá formar: 6 NADH + H+ , 2 FADH, 1 GTP, 4 CO2. Esse saldo de NAD e FAD reduzido será utilizado na fosforilação oxidativa (cadeia respiratória). É importante lembrar que o ciclo de Krebs pode ter sua velocidade diminuída, porém ele nunca cessa 6,7.

Os pontos reguladores do ciclo de Krebs são: complexo piruvato desidrogenase, isocitrato desidrogenase, complexo αcetoglutarato desidrogenase, citrato sintase. Os pontos reguladores fazem com que as reações fiquem irreversíveis, ou seja, o ciclo de Krebs ocorre somente em um sentido 6,7.

  • Fosforilação oxidativa

A fosforilação oxidativa ou cadeia respiratória, ocorre na matriz mitocondrial, ou seja, no espaço intramembranar. Ela se resume basicamente em transporte de elétrons e também em uma diferença de gradiente de concentração, onde os elétrons são usados como “fonte de energia” para a enzima ATPase. Os elétrons são transportados por cinco complexos diferentes 6,7.

O NAD desidrogenase ou complexo I é uma proteína transmembranar que apresenta na sua estrutura íons ferro (Fe), enxofre (S) e flavina mononucleotídeo (FMN) 6,7.

O complexo II ou succinato desidrogenase é o grupo prostético da proteína NADH desidrogenase e não é transmembranar, esta voltada para a matriz e também apresenta Fe e S na sua estrutura. A coenzima Q ou ubiquinona é uma molécula de origem lipídica, por isso, se encontra no interior da membrana que tem semelhança com esta estrutura 6,7 .

O citocromo redutase ou complexo III é uma proteína transmembranar composta por dois tipos de citocromo: B e C1. O citocromo C não é transmembranar e está em contato com o espaço intramembranar 3. O complexo IV ou proteína citocromo A1 e A3 (possui Fe) oxidase apresenta Cu na sua estrutura e é transmembranar, este complexo possui oxigênio ligado a ele 6,7 .

A cadeia respiratória, funciona com transferência de elétrons - energia de uma substância reduzida para outra oxidada. O NAD reduzido ao entrar em contato com o complexo I, cede seus elétrons e então se oxida consequentemente, o complexo I se reduz (primeiro o grupamento prostético e o Fe), este reduz a coenzima Q e fica oxidado, a coenzima Q cede elétrons para o complexo III que se reduz 6.

Os elétrons do FAD (gerado no ciclo de Krebs) vão direto para a coenzima Q, ela pode receber elétrons do complexo I ou II. Existem também lançadeiras de moléculas capazes de transportar o NAD do citosol para a matriz 6,7.

No complexo III as substancias são reduzidas, estas depois se oxidam e reduzem o complexo IV, que depois se oxida e reduz o oxigênio ao transferir para a matriz, são também transferidos prótons para a matriz, que assim gera água metabólica 3 . A mitocôndria produz radical livre quando o oxigênio não é reduzido por completo, os mecanismos antioxidantes (ex.: superoxido desmutase) destroem os radicais livres 6,7.

Os complexos I, III e IV ao cederem elétrons para a coenzima Q, para o citocromo C e para o oxigênio liberam para o meio (crista mitocondrial) energia livre e esta é utilizada para as proteínas transmembranares (ex.: complexo IV) conseguirem bombear prótons (H+) da matriz mitocodrial para o espaço intramembranar à medida que são transportados 6,7 .

Durante a corrente de elétrons foi criado um gradiente de prótons, ou seja, um local onde tem mais cargas positivas do que o outro (espaço intramembranar), porém é necessário que haja um equilíbrio eletrônico, nesse equilíbrio vai ocorrer então o transporte de prótons 6.

A proteína F0 F1 - ATPase ou complexo V, possui uma porção catalítica, a qual está inserida na membrana interna e forma um canal para prótons, está em contato com o espaço intramembranar transfere os prótons do espaço intramembranar pelo canal de F0 e vai para a porção F1, esta estimula a fosforilação do ADP + Pi formando ATP que sai e vai suprir a célula como um todo e por isso o ATP sai da mitocôndria através de um transportador que à medida que leva ATP para fora da mitocôndria trás ADP para dentro da matriz mitocôndrial 6,7 .

A cadeia respiratória não é tão dependente da fosforilação quando ocorre o inverso porque existem outros canais para ocorrer a estabilização do gradiente de concentração de ATP e ADP dentro e fora da célula. Uma parte da energia produzida na célula é transformada em calor para ajudar na homeostase térmica 6,7.

  • Importância biológica dos carboidratos

O carboidrato fornece primariamente combustível para o cérebro, medula, nervos periféricos e células vermelhas do sangue. Dessa forma, a ingestão alimentar insuficiente desse nutriente energético implica em danos ao sistema nervoso central, além da produção concomitante de corpos cetônicos, com graves prejuízos ao organismo, além de permitir o catabolismo dos ácidos graxos em água e Acetil Coa1.

Os carboidratos são nutrientes energéticos cujos maiores representantes pertencem ao reino vegetal sejam na forma de carboidrato complexo ou na forma de açúcar1.

  • Participação de alguns carboidratos na indústria alimentícia

A inulina e as oligofrutoses, respectivamente, polímero e oligômeros de D-frutose, são importantes como carboidratos de reserva em plantas8. Seus nomes derivam de oligossacarídeos (carboidratos com menos de 10 subunidades de monossacarídeos) compostos predominantemente de frutose9.

A inulina e as oligofrutoses são utilizadas para enriquecer com fibras produtos alimentares. Diferentemente de outras fibras, não tem sabores adicionais, e podem enriquecer os alimentos sem contribuir muito com a viscosidade. Estas propriedades permitem a formulação de alimentos com alto teor de fibras mantendo a aparência e o gosto das formulações padrão8.

As oligofrutoses são comumente utilizadas em cereais, preparações de frutas para iogurtes, sobremesas congeladas e produtos lácteos8.

As propriedades nutricionais da inulina e oligofrutose são similares, assim a decisão de formular com inulina ou oligofrutoses se dá em função dos atributos desejados no produto final8.

Referências

1- Oliveira JED; Marchini JS; Ciências Nutricionais. São Paulo. 1ª edição. Editora Sarvier; 1998.

2-http://members.tripod.com/medworks/Bioquímica

3- http://www.geocities.com/bioquimicaplicada

4- http://pt.wikipedia.org

5- Marzzoco A; Torres BB; Bioquímica Básica. Rio de Janeiro. 2ª edição. Editora Guanabara, 1999.

6- Lehninger AL; Nelson DL; Cox MM; Princípios de Bioquímica, 2ª edição. Editora Sarvier, 1995.

7- Stryer L.;Tymoczko JL;Berg JM; Bioquímica editora. Rio de Janeiro. 5ª edição. Editora Guanabara Koogan, 2004.

8- Hauly MCO; Moscatto JA. Inulina e Oligofrutoses: uma revisão sobre propriedades funcionais, efeito prebiótico e importância na indústria de alimentos. Ciências Exatas e Tecnológica, Londrina, v. 23, n. 1, p. 105-118, dez. 2002.

9- Saad SMI. Probióticos e prebióticos: o estado da arte. Revista Brasileira de ciências farmacêuticas, v. 42, n. 1, mar. 2006

 

 

 

June 2006 Volume 10 Number 2 

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