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USO DE COMPOSTOS DE PROPRIEDADES FUNCIONAIS NA TERAPIA NUTRICIONAL DA DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA Tatiana Branco Barroso Nutricionista Especialista pela Disciplina de Gastroenterologia, Departamento de Pediatria, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo 1.Introdução 1.1 Doença Inflamatória Intestinal
Doença inflamatória intestinal (DII) é uma terminologia genérica, usada para abranger doenças intestinais crônicas, sendo elas Doença de Crohn (DC), colite ulcerativa (CU) e colite inespecífica (CI). (Eidelwein e cols., 2007; Oliva-Hemker e Fiocchi, 2002). As duas manifestações mais freqüentes das DII são a colite ulcerativa (RCU) e a DC. A principal diferença entre estas manifestações é que a CU compromete apenas o intestino grosso enquanto a DC pode acometer qualquer segmento do trato digestivo, da boca ao ânus. Estas DII têm sua significância para a gastroenterologia e para a saúde pública, em particular a DC e a CU, pelos seguintes motivos:
(Quilici e cols., 2007). A CU e a DC são atualmente consideradas entidades distintas, com respostas imunológicas peculiares, embora compartilhem de algumas semelhanças, sobretudo do ponto de vista clínico (Damião e cols., 2007). Estima-se que a DII afete 1,4 e 2,2 milhões de pessoas nos Estados Unidos e Europa, respectivamente (Damião e cols., 2007; Neuman, 2007). No Brasil, ainda é desconhecida a real incidência da DII, mas ela é certamente maior nas regiões sul e sudeste (Damião e cols., 2007; Troncon e cols., 2006). Um estudo retrospectivo em pacientes menores de 20 anos de dois centros terciários, das regiões nordeste e sudeste do Brasil, mostrou que os sintomas iniciais mais comuns são: Diarréia - 89,7%
Este mesmo estudo ainda relata que, o intervalo de tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico variou entre 0,1 e 10,9 anos (média=1,7 anos; mediana=1,0 anos), o que pode influenciar o nível de gravidade da doença, tipo de tratamento e também a abordagem dietoterápica, visando à atenuação dos sintomas e melhora nos perfis antropométricos e laboratoriais (Figueiredo e cols., 2004). A tabela a seguir relaciona dados epidemiológicos descritivos sobre a DII. Tabela 1 - Principais dados epidemiológicos descritivos da doença inflamatória intestinal.
(Damião, 2007). A etiologia da DII é desconhecida e multifatorial, podendo estar relacionada a aspectos genéticos, imunológicos e ambientais, dentre os quais se encontram os fatores dietéticos. Consequentemente, não há um tratamento padrão para a CU e a DC. (Zaltman e cols., 2007; Mahmud e Weir, 2001). O tratamento clínico deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar, envolvendo abordagem farmacológica, com uso de aminossalicilatos, antibióticos, corticoesteróides, imunomoduladores, probióticos, terapia nutricional e terapias biológicas (Zaltman e cols., 2007). Ressalta-se ainda que, independente da opção terapêutica selecionada, o tratamento deve ser individualizado e discutido com o paciente antes de sua implantação, visando a aderência à terapêutica, que deverá ser contínua e por tempo indeterminado. O tratamento da DII tem como objetivos:
Quando a doença encontra-se em atividade, alguns parâmetros devem ser verificados para a melhor escolha da terapia nutricional, especialmente na DC, que comumente apresenta maior gravidade e intensidade dos sintomas. A figura 1, a seguir, ilustra o exposto. Figura 1 - Parâmetros para escolha da nutrição como terapêutica primária na doença de Crohn ativa em pacientes pediátricos
(Zaltman, Costa e Diestel, 2007).
2. Objetivo do trabalho
Esta monografia propõe-se a realizar revisão da literatura recente sobre o uso de componentes com propriedades funcionais na terapia nutricional da doença inflamatória intestinal pediátrica; além disso, iremos destacar os principais parâmetros da terapia nutricional neste grupo etário e a especificidade dos componentes funcionais.
3. Compostos Funcionais 3.1 Definição
De acordo com a SBAF - Sociedade Brasileira de Alimentos Funcionais, alimento funcional é aquele alimento ou ingrediente que, além das funções nutricionais básicas, quando consumido como parte da dieta usual, produz efeitos metabólicos e/ou fisiológicos e/ou efeitos benéficos à saúde, devendo ser seguro para consumo sem supervisão médica. A eficácia e segurança desses alimentos devem ser asseguradas por estudos científicos (Disponível em: www.sbaf.org.br, acesso em fevereiro/2008).
3.2 Histórico
Historicamente, a utilização de certos alimentos na redução do risco de doenças é considerada a milhares de anos. Hipócrates, há cerca de 2500 anos, já pregava isso em sua célebre frase "faça do alimento o seu medicamento e de seu medicamento o seu alimento". No entanto, somente no final deste último século, na década de 1990, é que começou a haver um interesse renovado por esse assunto, e foi quando o termo "alimento funcional" passou a ser adotado. As pesquisas se intensificaram e o conceito de alimento funcional tornou-se mais conhecido do público leigo e também de pesquisadores que até então não estavam envolvidos com estudos nessa área (Disponível em: www.sbaf.org.br, acesso em fevereiro/2008).
3.3 Legislação
O Japão foi o pioneiro na produção e comercialização de alimentos funcionais. Conhecidos como FOSHU, "Foods for Specified Health Use", os funcionais japoneses sustentam um selo de aprovação do Ministério da Saúde e Bem Estar. A lei japonesa foi elaborada em junho de 1997, mas não é a única atualmente. Hoje vários países contam com uma legislação específica, no Brasil, as regras foram instituídas a partir de 1999. A indústria deve seguir a legislação do Ministério da Saúde. As resoluções nº 18 e 19 de 30/04/99 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelecem normas e procedimentos para registro de alimentos e/ou ingredientes funcionais. Para se obter o registro de um alimento com alegação de propriedades funcionais e/ou de saúde, deve ser formulado um relatório técnico científico bastante detalhado, comprovando os benefícios e a segurança de uso do alimento (Disponível em: www.sbaf.org.br, acesso em fevereiro/2008).
4. Terapia Nutricional na DII
Os objetivos da terapia nutricional (TN) na DII baseiam-se nos seguintes preceitos:
Pode ser indicada suplementação nutricional, especialmente em casos de crianças com atraso no crescimento (baixa estatura e/ou desnutrição). Fórmulas líquidas específicas de alta caloria são muitas vezes utilizadas para este propósito. Um pequeno número de pacientes pode necessitar de nutrição parenteral, ajudando a suplementar as necessidades energéticas elevadas, ou em casos em que os intestinos precisam ser poupados ou que não estejam conseguindo absorver a dieta devido às lesões do trato gastrintestinal. (Disponível em: www.niddk.nih.gov, acesso em janeiro/2007). Também pode ser considerada a NPT em pacientes nos quais a nutrição enteral esteja contra-indicada (devido à presença de fístulas de alto débito no intestino delgado, obstrução, intestino curto, entre outras). A nutrição enteral (NE) pode ser utilizada em casos em que a ingestão por via oral não for possível ou suficiente para alcançar as necessidades nutricionais, em casos de anorexia grave, náuseas ou no pré-operatório (Goh e O'Morain, 2003). De acordo com a fase de atividade da doença, as orientações dietéticas podem divergir. Na fase ativa da doença, é importante que a alimentação auxilie no controle dos sintomas presentes e previna ou reverta a perda de peso por meio de suplementos nutricionais adequados. Características da dieta na fase ativa da DII:
(Pinto Júnior, Habr-Gama e Teixeira e cols., 2004). Na fase de remissão da doença, com a progressiva melhora clínica, podem ser incluídos na dieta os carboidratos simples com moderação, e a lactose progressivamente. O conteúdo de fibras total e insolúvel da dieta deve ser reintroduzido gradativamente, e manutenção do teor de gordura moderado. As calorias devem se adequar ao estado nutricional atual de cada paciente (Pinto Júnior, Habr-Gama e Teixeira e cols., 2004). A maioria dos pacientes, mesmo em períodos de atividade da doença, pode alimentar-se adequadamente por via oral, desde que seguidas as orientações previamente enumeradas (Goh e O'Morain, 2003). Em boa parte dos casos, quando na fase de remissão, são utilizadas as recomendações internacionais (Dietary Reference Intakes - DRIs, 2002) para macronutrientes, ácidos linolênico e linoléico (ácidos graxos ω3 e ω6), vitaminas (lipossolúveis e hidrossolúveis) e água. Ainda não há valores estabelecidos para componentes funcionais (FOS, probióticos, prebióticos, inulina, etc), apenas quantidades que devem conter os alimentos a fim de que sejam qualificados desta forma (Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA, resolução nº 19, obtida através do portal www.sbaf.org.br, acesso em fevereiro de 2008).
Pacientes com DII podem manifestar comprometimento acentuado do estado nutricional durante a fase aguda da doença, ocorrendo, portanto, desnutrição crônica mais freqüente na DC do que na CU (Ling e Griffiths, 2000 apud Frenhani, 2003). Diante de manifestações como as citadas acima, e outras conseqüências nutricionais que ocorrem nas DII, faz-se necessária à intervenção nutricional precoce, com a introdução de terapia nutricional que atenda as necessidades individuais de cada paciente e associação com nutrientes específicos (como AG-ω3 e probióticos) que auxiliem no controle da atividade da doença e, consequentemente, proporcionando melhora clínica e nutricional em longo prazo (Frenhani, 2003). Apesar da etiologia multifatorial da DII e dos poucos esclarecimentos sobre os compostos funcionais, o fornecimento de nutrientes associados numa alimentação equilibrada constituem, juntamente a uma criteriosa avaliação nutricional prévia, medidas fundamentais na prevenção e terapêutica nutricional na DII (Buarraj et al, 2004; Flora e Dichi, 2006).
APÊNDICES
APÊNDICE 1 - Ingestão Dietética Recomendada - DRIs - para a faixa etária pediátrica
APÊNDICE 2 - Ácidos Graxos Poliinsaturados de Cadeia Longa (LC-PUFAS)
Divisão das gorduras da dieta:
APÊNDICE 3 - Compostos funcionais relacionados à DII
A alegação da propriedade funcional constante no rótulo deve seguir o seguinte modelo: “O consumo de ácidos graxos ômega 3 auxilia na manutenção de níveis saudáveis de triglicerídeos, desde que associado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis”.
Esta alegação somente deve ser utilizada para os ácidos graxos Omega 3 de cadeia longa provenientes de óleos de peixe (EPA - ácido eicosapentaenóico e DHA - ácido docosahexaenóico).
A alegação da propriedade funcional constante no rótulo deve seguir o seguinte modelo: “Os frutooligossacarídeos - FOS contribuem para o equilíbrio da flora intestinal. Seu consumo deve estar associado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis”.
Esta alegação pode ser utilizada desde que a porção diária do produto pronto para consumo forneça no mínimo 3 g de FOS se o alimento for sólido ou 1,5 g se o alimento for líquido. Quando apresentada isolada em cápsulas, tabletes, comprimidos, pós e similares, a seguinte informação, em destaque e em negrito, deve constar no rótulo do produto: “O consumo deste produto deve ser acompanhado da ingestão de líquidos”. Figura 1 - Estrutura molecular das 3 principais formas de FOS:
Legenda: (a)1-kestose; (b) nistose; (c) frutofuranosil nistose.
A alegação da propriedade funcional constante no rótulo deve seguir o seguinte modelo: “A inulina contribui para o equilíbrio da flora intestinal. Seu consumo deve estar associado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis”. Esta alegação pode ser utilizada desde que a porção diária do produto pronto para consumo forneça no mínimo 3g de inulina se o alimento for sólido ou 1,5 g se o alimento for líquido.
Na tabela de informação nutricional deve ser declarada a quantidade de Inulina, abaixo de fibras alimentares.
A alegação da propriedade funcional constante no rótulo deve seguir o seguinte modelo: “O (indicar a espécie do microrganismo) (probiótico) contribui para o equilíbrio da flora intestinal. Seu consumo deve estar associado a uma alimentação equilibrada e hábitos de vida saudáveis”.
A quantidade mínima viável para os probióticos deve estar situada na faixa de 108 a 109 UFC (Unidades Formadoras de Colônia) na porção diária. Valores menores do que estes podem ser aceitos, desde que a empresa comprove sua eficácia. |
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March 2009 Volume 13 Number 1 |
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