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Vânia C S G Bonucci1 & Ulysses Fagundes Neto2
Disciplina de Gastroenterologia Departamento de Pediatria Escola Paulista
de Medicina Universidade Federal de São Paulo
1 Pósgraduanda 2 Professor
Titular da Disciplina de Gastroenterologia Pediátrica
Introdução
A fibrose cística (FC) é uma exocrinopatia generalizada
autossômica recessiva com manifestações múltiplas em vários
órgãos e sistemas: trato respiratório, pâncreas, trato gastrointestinal,
sistema hepatobiliar e sistema reprodutor. Caracteriza-se pela tríade: doença
pulmonar obstrutiva crônica, insuficiência pancreática e elevações
dos níveis de eletrólitos no suor 1, 4, 5, 14, 19.
É considerada a doença genética letal mais comum nos
caucasianos. A incidência na população de caucasianos nascidos vivos é
de aproximadamente 1:2000 e 4% da população branca são portadores heterozigotos
do gene. É menos freqüente em negros (1: 17000), e rara em asiáticos1,2.
No Brasil, a primeira publicação sobre FC foi de autoria de
Gesteira, que em 1949 revisou os conhecimentos sobre a doença e seus métodos
diagnósticos. Ressaltou sua existência em nosso meio e chamou a atenção
para a ausência de publicações até aquela data3.
Segundo Raskin4, o líder em número de casos
no Brasil é o Rio Grande do Sul. Um em cada 1.587 recém-nascidos gaúchos
tem a doença, seguido dos paranaenses, com uma criança com fibrose cística
em cada 6.803. As falhas encontradas no DNA dos bebês brasileiros estudados coincidem
com as detectadas em Portugal, Itália e Espanha.
O gene da FC é grande, cerca de 250 kb de DNA genômico, apresenta
27 éxons, codifica um RNAm transcrito de 6,5 kb. Esse RNAm é transcrito em uma
proteína de 1480 aminoácidos denominada CFTR (cystic fibrosis transmembrane regulator).
Este gene localiza-se no braço longo do cromossomo sete. A maioria dos pacientes com
fibrose cística é portadora da mesma mutação: deleção
de três pares de bases, adenosina-timina-timina (ATT) no gene CFTR, éxon 10, resultando
na perda do aminoácido fenilalanina na posição 508 - delta F. A deleção
na posição 508 resulta em uma mutação na seqüência do
DNA que vai ocasionar a síntese de uma CFTR anômala, o que, em última análise,
determina modificações na solubilidade e no conteúdo das secreções14.
A freqüência dessa mutação varia entre as populações.
Aproximadamente 300 outras mutações já foram descritas contribuindo, provavelmente,
para a grande variabilidade clínica da doença 1,2.
As mutações na FC foram classificadas em quatro classes: I)
As que causam síntese protéica defeituosa por alterarem o processamento
do RNA; II) As de defeito no processamento ou trânsito intracelular da proteína
(exemplo a ∆F508); III) As que acarretam CFTR com defeito na regulação dependente
da fosforilação e ou ATP, mas que podem transitar para a membrana basal; IV)
As que apresentam defeito na condução do cloro apesar da localização
normal da CFTR.
A freqüência da mutação ∆F 508 foi estudada em 190
pacientes com FC caucasóides, de cinco diferentes estados do sul e sudeste brasileiro,
estando presente em 47% dos alelos examinados (49, 27, 44, 52 e 53%) em pacientes do RS, SC,
PR, SP e MG, respectivamente. Há uma correlação entre esse genótipo
e a presença de uma das principais manifestações clínicas da doença:
a insuficiência pancreática exócrina. No Paraná, dos pacientes que
possuem a mutação ∆F508 na sua forma homozigótica, 98% apresentaram insuficiência
pancreática1,4.
Em indivíduos normais, a bomba Na+/K+ promove passagem do sódio
intracelular para o interstício. Isso gera um gradiente iônico que desencadeia
um fluxo de sódio do lume para o meio intracelular e posteriormente para o interstício
através do transporte ativo pela bomba Na+ - K+. Simultaneamente, há re-entrada
de sódio junto com cloro na porção basal da célula. Ocorre, então,
aumento da concentração de cloro intracelular e, conseqüentemente, saída
desse através do canal de cloro para o interstício.
Na FC, há a síntese da proteína transportadora transmembrana
que altera o transporte de cloro e bicarbonato. A membrana apical das células fica impermeável
ao cloro, gerando diminuição da secreção desse íon. Além
disso, há reabsorção de sódio através do epitélio
das vias aéreas. O aumento da reabsorção de sódio e a redução
da secreção de cloro diminuem a quantidade de água no fluido periciliar,
que é dependente do transporte ativo desses íons. Conseqüentemente forma-se
uma secreção mucosa viscosa e há diminuição da depuração
mucociliar1, 2, 5.
Insuficiência pancreática exócrina
A lesão pancreática ocorre como resultado da obstrução
dos ductos pancreáticos por secreção espessa eosinofílica. Após
a obstrução ocorre dilatação dos ácinos. Segue-se nas lesões
mais extensas, destruição do parênquima pela secreção proteolítica
retida com posterior substituição por tecido fibroso e, às vezes, por
tecido gorduroso. Cerca de 85% dos pacientes com fibrose cística apresenta insuficiência
pancreática exócrina com diminuição de enzimas proteolíticas
e lipolíticas6. Conseqüentemente, há azotorréia e esteatorréia.
O comprometimento endócrino também tem se mostrado freqüente, com uma proporção
significativa de pacientes evoluindo com algum grau de intolerância à glicose1,2,5,6,7.
Estudos morfogenéticos realizados em pâncreas de crianças
com FC e de um grupo controle demonstraram que o pâncreas dos pacientes não segue
o mesmo padrão de desenvolvimento e amadurecimento como apresentado pelo pâncreas
normal. Nesse último, a relação ácino/tecido conetivo vai progressivamente
aumentando (por aumento do ácino), enquanto no pâncreas mucoviscidótico
essa relação vai diminuindo (por aumento do tecido fibroso)8.
A FC caracteriza-se por diarréia crônica com evacuações
de fezes volumosas, amarelo palha, brilhante, gordurosas e fétidas, cuja freqüência
ultrapassa cinco evacuações/dia. Podem ser percebidos restos alimentares não
digeridos. O abdômen é globoso e flácido à palpação.
Há hipotrofia muscular generalizada1,2,5.
A caracterização de diarréia crônica ou de esteatorréia
em lactentes é um pouco complicada pelo fato de que o número de dejeções
por dia podem variar muito: de zero a oito vezes ao dia.
A desnutrição se instala rapidamente. O aumento das necessidades
de energia deve-se tanto ao aumento do gasto como ao das perdas. O primeiro está em
relação direta com a patologia pulmonar, infecções e o defeito
básico da doença. O aumento das perdas pode apresentar-se no trato digestivo
(má absorção por alterações pancreáticas, hepáticas
e da própria mucosa intestinal), pulmonar (escarro), suor (sais e certas vitaminas)
e urina (diabetes mellitus). A insuficiência pancreática exócrina juntamente
com outras alterações do aparelho digestivo, é a responsável
pela má absorção de vitaminas lipossolúveis cujo déficit
tem sido amplamente descrito nessa patologia1,10.
Penna et al, realizaram estudo com objetivo de determinar a prevalência
de doenças de má-absorção intestinal como causa de baixa estatura
monossintomática. Foram estudadas 51 crianças, com idade média de 8,5
+ 3,3 anos (intervalo de 1 a 15 anos) portadoras de estatura abaixo do terceiro percentil
para idade e sexo, utilizando-se como referência o padrão NCHS ou crianças
com velocidade de crescimento inferior a 5 cm/ano. Foram realizados hemograma, reticulócitos,
Fe sérico, capacidade de ligação do ferro, cálcio, fósforo,
fosfatase alcalina, uréia, creatinina, colesterol, triglicérides, proteínas
totais e frações, T3, T4, TSH, dosagem de hormônio do crescimento em condição
basal e, após estímulo com clonidina, dosagem sérica de anticorpos anti-gliadina
(IgA e IgG), Van de Kamer, avaliação radiológica, biopsia jejunal (47
crianças ou 92%) e dosagem de cloro no suor em todas as crianças. O achado mais
interessante e em um percentual significativo (8,5%) foi à dosagem alterada de cloreto
no suor em pacientes sem manifestações clássicas de fibrose cística.
A dosagem de cloreto variou nesses pacientes de 70 a 89 mEq/L, média de 78,7 +
7,8 mEq/L. As famílias dessas 4 crianças foram estudadas e, em duas delas, foi
diagnosticada provável fibrose cística em 3 irmãos (2 em uma família
e 1 em outra). A única manifestação aparente encontrada nessas outras
3 crianças também foi a baixa estatura. Outras condições que também
podem levar ao aumento do cloreto no suor, tais como doença celíaca, hipotireoidismo
e dermatite atópica foram excluídas por avaliação clínica
ou laboratorial9.
Até 15% dos pacientes com fibrose cística pode ter função
pancreática preservada o suficiente para evitar a esteatorréia e alterações
do crescimento e desenvolvimento5. Os sinais e sintomas de má digestão
alimentar somente se tornarão evidentes após o pâncreas perder 98% de sua
capacidade de excretar enzimas digestivas11. São vários os testes
diretos e indiretos para se avaliar a função exócrina pancreática.
Os testes diretos são muito específicos e de natureza invasiva o que impede que
sejam utilizados na prática diária. A dosagem de gordura fecal usando-se a coleta
total das fezes de 72 horas pelo método Van de Kamer é o mais amplamente empregado
e provavelmente o mais informativo para avaliação indireta da atividade da lipase.
Para uma ingestão de dieta padronizada em 60g de gorduras por dia, o valor da excreção
de gordura fecal é de até 3,0g/24 horas (<5% de excreção). O
controle da função pancreática na fase intestinal é mediado por
dois hormônios que disputam o principal papel na função pancreática
exócrina, a secretina e a pancreozimina-colecistocinina (CCK), sendo a colecistocinina
e a pancreozimina idênticas. O teste da secretina-pancreozimina (S-P) permite uma medida
quantitativa direta da função secretória pancreática 1,2,5,8.
No método de Burton et al, usa-se uma sonda gastroduodenal
radiopaca de dupla via que é posicionada sob controle fluoroscópio; através
de uma das vias drena-se o conteúdo gástrico e da outra o duodenal. Secreções
duodenais são coletadas com intervalos de 10 minutos, em três períodos
após injeção intravenosa de secretina e em três períodos
após infusão intravenosa de pancreozimina. A dose utilizada de cada um dos hormônios
é de 2 CHR U/kg (crick Haper raper), e o volume de cada aspirado é conservado
em um recipiente com gelo. Outros autores preconizam a injeção “em bolo” de secretina
1 U/kg e pancreozimina 3 U/kg, com posterior coleta em três períodos de 20 minutos.
Os aspirados são avaliados quanto ao seu volume, medida de pH, concentrações
de bicarbonato, amilase, tripsina, lipase, bilirrubinas, fosfatase alcalina, cálcio
e magnésio. Amostras são encaminhadas para microscopia e citologia. Uma dosagem
enzimática reduzida após injeção de pancreozimina corresponde ao
índice mais sensível para avaliar a diminuição da função
pancreática12.
Sabendo-se que o diabetes mellitus é uma complicação
possível nas crianças mucoviscidóticas e que isso leva a várias
condições crônico-degenerativas passíveis de serem retardadas com
tratamento correto, é importante estudar o momento de acometimento para possibilitar
avaliações diagnósticas adequadas e condutas precoces. Segundo dados epidemiológicos
algum grau de intolerância à glicose ocorre em aproximadamente 50% dos pacientes
com mais de 18 anos de idade e diabetes clinicamente manifesto no mesmo percentual aos 30 anos.
O mecanismo fisiopatológico da intolerância à glicose na mucoviscidose
é controverso. O comprometimento na secreção de insulina em pacientes
mucoviscidóticos decorre da destruição das ilhotas pancreáticas
por fibrose, infiltração gordurosa ou deposição de amilóide.
Alterações na sensibilidade à insulina também têm sido implicadas.
A resistência insulínica deste distúrbio tem sido justificada por
vários mecanismos: infecções pulmonares recorrentes ou crônicas,
fibrose hepática subclínica, elevação de hormônios contra-reguladores
(cortisol e catecolaminas), níveis elevados de citocinas (interleucina de TNFa) e, em
pacientes com diabetes manifesto, a glicotoxicidade.
Castro et al7 realizaram estudo com objetivo de verificar
a freqüência de diabetes mellitus e intolerância à glicose em pacientes
mucoviscidóticos correlacionando-a com o tempo de mucoviscidose clinicamente manifesta
e função pancreática exócrina. Foi feito estudo transversal, de
um grupo de 25 pacientes com mucoviscidose, e a média de idade foi de 8
anos e 10 meses, variando de 9 meses a 30,8 anos ;(sendo 14 homens e 11 mulheres).
Foram realizadas dosagens de glicemia em todos os 25 pacientes, após jejum prévio
de 8 a 14 horas. Destes, 17 pacientes foram submetidos a um teste oral de tolerância
à glicose, sendo que somente em 15 pacientes foi possível também colher
amostras para a determinação sérica de insulina. A função
pancreática exócrina foi avaliada pela reposição enzimática
necessária em número de cápsulas de enzima pancreática (1 cápsula
= 4 000 U/ kg/dia). O tempo de evolução da doença foi considerado a partir
da data do diagnóstico registrada no prontuário. A média de tempo da doença
foi de 6 anos e 11 meses (variando de 3 meses a 30,4 anos). Um paciente preencheu o critério
diagnóstico de diabetes mellitus por apresentar glicemia aos 120 minutos do OGTT maior
que 200mg/dl. Três pacientes apresentaram intolerância à glicose. Um paciente
apresentou níveis séricos elevados de insulina apesar de ter curva glicêmica
dentro dos limites da normalidade. Na análise dos resultados, verificou-se correlação
inversa (r= -0,57) e significativa (p=0,026) entre a idade dos pacientes e o número
de cápsulas de enzima pancreática ingeridas diariamente por quilo de peso. A
relação entre o tempo de doença manifesta e o número de cápsulas
também foi inversa (r=-0,33), mas não foi estatisticamente significativa7.
Diarréia crônica
Diarréia crônica é uma das manifestações
clínicas mais precoces da FC. Tem seu aparecimento entre o 1˚ e o 24˚ mês de vida.
Ocorre má absorção dos alimentos, principalmente de lipídios e
conseqüentemente esteatorréia. A síndrome de má absorção
intestinal é decorrente principalmente da insuficiência pancreática associada
ou não às alterações dos sais biliares e ao bloqueio do epitélio
intestinal pelo muco espesso. Pode haver quadros de hipoproteinemia em 8 a 10% dos casos; deficiência
de vitaminas, colestase e equivalente do íleo meconial. A flatulência é
comum com presença de abdômen protuberante. Desnutrição, hipotonia
muscular, esteatorréia, motilidade intestinal exacerbada e tosse persistente predispõem
ao prolapso do reto que ocorre em 20 a 25% dos casos1,2,5,8.
Íleo Meconial
O íleo meconial é a apresentação mais precoce
da FC. O recém-nascido apresenta dificuldade de eliminação de mecônio
com sinais de obstrução intestinal, abdômen distendido e vômito biliar
ou fecalóide. Há obstrução do lume do intestino delgado por mecônio,
geralmente próximo à válvula ileocecal. O cólon é pequeno
e aparentemente rudimentar, mas após a desobstrução readquire calibre
normal2.
Quinze a vinte por cento dos pacientes com FC apresentam íleo meconial.
Entretanto, nem todos os pacientes (somente 15 a 20%) com íleo meconial são fibrocísticos1.
Como complicação podemos observar o volvo do segmento ileal
comprometido com possibilidade de gangrena do mesmo; a formação de segmentos
atrésicos ou áreas de estenose associadas com o íleo meconial e a formação
de pseudocisto e perfurações intestinais (peritonite meconial).
Nos raios X simples de abdômen, nota-se dilatação
das alças do intestino delgado dando aspecto radiológico de “vidro moído”
que consiste na mistura do gás com mecônio espesso nas alças obstruídas.
Quando há peritonite meconial podem ainda ser observadas calcificações.
A confirmação de FC é feita pelo teste do suor desde
que se consiga uma quantidade adequada do mesmo (> 100 mg) para a dosagem do cloro, que
é difícil de se obter nesta faixa etária1.
O equivalente do íleo meconial ocorre em 10 a 20% dos adultos com fibrose
cística. Farias et al, em estudo realizado no Hospital das Clínicas
da Universidade Federal do Paraná (HC - UFPR), notaram presença de equivalente
de íleo meconial em 6% dos 62 pacientes com FC13. Manifesta-se pela presença
de material impactado, principalmente no ceco e menos freqüentemente no íleo terminal.
É devido ao aumento da viscosidade da mucoproteína intestinal, aumento da acidez
no intestino delgado que leva à precipitação de proteínas e a à
não digestão de gorduras que estimulam a liberação de glucagon
entérico que, por sua vez, diminui a velocidade do trânsito
intestinal 1,2,14. O tratamento é feito com clister de N-acetilcisteína.
Nos casos complicados, indica-se o tratamento cirúrgico1,14.
Alguns estudos têm sugerido que a presença de íleo meconial
ou obstrução intestinal distal como fatores de risco para o desenvolvimento de
doença hepática em portadores de FC. Maurage et al referem que tais
fatores de risco estavam presentes em 50% dos pacientes com FC/cirrose e em 14% dos pacientes
com fibrose cística sem doença hepática. De modo similar, Colombo et
al descreveram a incidência dos mesmos em 35,3% dos pacientes com doença hepática
e somente 12,3 % nos pacientes com FC sem doença hepática15. Apesar
desta associação, a maioria dos pacientes com FC e doença hepática
não apresenta história de íleo meconial16.
Colonopatia fibrosante
A colonopatia fibrosante tem sido relatada em crianças com FC, sendo
que a maioria faz uso de enzimas pancreáticas em altas doses para o controle da má
absorção intestinal 1,2,5,17,18,19.
Fiyzsimmons et al realizaram estudo de caso-controle para investigar
a relação entre a dose de enzima pancreática e o aparecimento de colonopatia
fibrosante. Foram estudados 29 pacientes, com média de idade de 5 anos, apresentando
colonopatia fibrosante e 105 controles com média de idade de 5,2 anos. A dose média
de enzima pancreática foi de 50.046 U de lipase/kg/dia nos pacientes e 18.985 U/kg/dia
nos controles. A história de complicações gastrointestinais atribuída
à fibrose cística e ao uso de bloqueadores H2, corticosteróides ou DNase
estiveram,associadas à maior incidência de colonopatia fibrosante. Após
história clínica detalhada de tais complicações e o uso dessas
medicações, o risco relativo de colonopatia fibrosante que foi associado à
dose de 24.001-50.000 U de lipase/kg/dia quando comparada à dose 0-24.000 U/kg/dia foi
de 10,9 (95% intervalo de confiança, 1,6 para 71,8). Ao serem utilizadas doses maiores
de 50U/kg/dia, o risco relativo foi de 199,5 (95% intervalo de confiança, 9,9 para 4.026).
A potência, o revestimento e a fabricação dos produtos usados não
foram associados com o risco de colonopatia fibrosante. Conclui-se que em crianças com
fibrose cística, foi encontrada uma forte relação entre altas doses de
enzimas pancreáticas e o desenvolvimento de colonopatia fibrosante e que, de acordo
com os achados, recomenda-se que a dose diária de enzimas pancreáticas para a
maioria dos pacientes deve ficar abaixo de 10.000 U de lipase/kg/dia17.
Fígado e vias biliares
As lesões hepáticas decorrem do acúmulo de bile espessa
nos ductos biliares que leva à obstrução podendo evoluir para cirrose
biliar focal ou multinodular e secundariamente hipertensão portal. Esteatose hepática
pode estar presente e, apesar de possuir etiologia desconhecida, parece estar relacionada com
o estado nutricional do paciente20.
Estima-se que, em média, cerca de 20% dos adolescentes e adultos jovens
com FC sejam portadores de alguma alteração hepática ou biliar, com ou
sem manifestação clínica evidente21.
A fibrose biliar focal (FBF), é a lesão hepática mais
característica da FC, sendo muitas vezes denominada cirrose biliar focal, apesar de
não ser evidente alteração, nem do hepatócito nem da arquitetura
do fígado. A real incidência é motivo de estudos, pois para o diagnóstico
preciso desta enfermidade é necessária biópsia dirigida ou autópsia.
Há acúmulo no interior dos ductos biliares, de uma substância amorfa, eosinofílica,
PAS positiva, diastase-resistente e que, à microscopia eletrônica, mostra conter
lipídios e pigmento biliar bem como uma estrutura filamentosa. O acúmulo dessa
substância determina alterações na drenagem do órgão, com
edema e infiltrado inflamatório portal e, mais tardiamente, proliferação
ductal e fibrose. Com o aumento da sobrevida, a fibrose pode evoluir para cirrose verdadeira
com o aparecimento de nódulos degenerativos22.
A colestase neonatal geralmente ocorre como complicação do íleo
meconial e o uso de nutrição parenteral. Trata-se de uma forma mais rara de manifestação
da FC, mas, em todo recém-nascido com icterícia colestática obstrutiva
prolongada, deve ser considerada a possibilidade de fibrose cística, devendo-se afastar
inicialmente a possibilidade de atresia das vias biliares1, 2,5,23.
A colelitíase raramente é sintomática na infância.
Até recentemente, acreditava-se que a maioria destes cálculos seria formada por
colesterol, devido à secreção de bile litogênica, possivelmente
pela interrupção da circulação êntero-hepática de
sais biliares. Entretanto, estudos recentes indicam que os cálculos por bilirrubinato
de cálcio podem representar a maioria dos cálculos biliares associados com esta
entidade. Em cerca de 12% dos pacientes com FC são encontrados cálculos biliares,
cujas manifestações são geralmente tardias, durante ou após a adolescência1,2,24.
Vesícula biliar pequena ou hipotrófica, possivelmente em decorrência
da obstrução do cístico pelas secreções espessas, é
a alteração mais freqüente das vias biliares extra-hepáticas nos
pacientes fibrocísticos2.
A apresentação clínica mais comum dos pacientes assintomáticos
com FC e doença hepática são a hepatomegalia ou esplenomegalia no exame
físico. O fígado pode estar firme, nodular e aumentado em 2 a 3 cm do RCD. Sinais
cutâneos como aranhas vasculares e eritema palmar são mais comuns na doença
crônica e raramente estão presentes. Cianose periférica e baqueteamento
digital estão presentes na doença pulmonar. Icterícia é comum em
pacientes com FC e colestase neonatal, colelitíase e doença hepática avançada.
Hemorragia gastrointestinal, ascite, encefalopatia e peritonite bacteriana são outros
sintomas raros. Uma manifestação comum é a elevação de enzimas
como AST, ALT, fosfatase alcalina ou gama-GT em exame de rotina. Hiperbilirrubinemia geralmente
ocorre tardiamente e está associada à obstrução do trato biliar
ou uso de drogas que induzam à hemólise. Elevações dos níveis
sangüíneos de amônia estão presentes na doença hepática
grave. O tempo de protrombina prolongado pode ser decorrente da doença hepática
grave ou da deficiência de vitamina K1,2,5,22,23,24.
Sokol et al realizaram estudo em 99 crianças com FC. Dessas,
27% e 38% apresentavam respectivamente valores acima do limite de normalidade para idade de
fosfatase alcalina e AST. A maioria dos pacientes apresentou elevações inferiores
a 1,5 acima do valor de referência23.
A dosagem sérica de gamaglutamil-transpeptidade (GGT) é considerado
um método sensível para a detecção de lesão hepática
e sua alteração indicaria não somente a presença de cirrose, mas,
quando em níveis elevados, seria um indicador de gravidade dessa lesão22,23,24.
Zullo et al realizaram estudo retrospectivo visando avaliar alterações
ultrassonográficas abdominais mais comuns em pacientes portadores de FC. Dos pacientes
estudados, 43 (74,1%) apresentaram ultra-sonografia de abdômen normal e 15 (25,9%) mostraram
alguma anormalidade. As mais freqüentes referem-se a modificações na ecogenicidade
do fígado, baço, pâncreas e dilatação da veia porta. O aumento
do volume hepático foi encontrado em 12% dos casos, esplenomegalia em 10,3%, alterações
da ecotextura hepática em 8,6%, alterações na vesícula biliar em
5,2% (um caso de cálculo biliar); alterações na ecotextura do pâncreas
em 3,5%; dimensões aumentadas das veia cava e supra-hepáticas em 3,5%. Várias
crianças apresentaram mais de uma das alterações acima descritas25.
Diagnóstico
O diagnóstico de FC deve ser baseado na presença de
uma ou mais manifestações fenotípicas (clínicas) características:
- Doença sinusal ou pulmonar crônica e/ou
- Insuficiência exócrina pancreática crônica
e/ou
- História familiar de FC confirmada e/ou
- Teste duplamente positivo de triagem neonatal
Associada(s) à evidência de elevação anormal
da concentração de cloro no suor, em duas ocasiões diferentes ou,
em casos especiais, identificação genética de duas mutações
de FC.
Teste do suor
O termo teste do suor é genérico e refere-se à
análise qualitativa ou quantitativa do suor por determinação da concentração
de eletrólitos, condutividade ou osmolaridade com o objetivo de avaliar o diagnóstico
de FC. A dosagem quantitativa de eletrólitos no suor obtida pelo método da iontoforese
com pilocarpina (descrito originalmente por Gibson e Cooke26) é o
único método aceitável para o diagnóstico de FC. No entanto, esse
método requer experiência, tempo e cuidados para prevenir a evaporação
da amostra, balança de precisão e habilidade para calcular a composição
eletrolítica de amostras diluídas. Além disso, são necessárias
amostras de suor com peso superior a 75 mg28.
As medidas de osmolaridade, condutividade e o uso de eletrodos de leitura
direta de cloro devem ser considerados como teste de triagem por estarem relacionados ao aumento
da freqüência de resultados falso-positivos ou negativos e nunca deverão
ser usados para o diagnóstico definitivo de FC1,2.
Em pacientes com FC, ambos os eletrólitos - cloro e sódio -
estão elevados, sendo que a diferença de um para o outro não pode ultrapassar
20 mmol/L e a relação cloro/sódio deve ser sempre > 1. O resultado
de um teste de suor com a concentração de cloro > 60 mmol/L, até que
se prove o contrário, é considerado como diagnóstico de FC. Pelo fato
da concentração de sódio no suor poder ser encontrada em níveis
de até 60 - 80 mmol/L em indivíduos com doenças diferentes da FC, a medida
desse eletrólito isoladamente não é recomendada 1, 2,26,27.
Stewart et al afirmam que desde a descoberta do gene da FC, em
1989, a genotipagem tem sido utilizada como rastreamento diagnóstico pré-natal
e na detecção da doença. Relatam que a genotipagem pode detectar mutações
do gene que estão associados ao fenótipo leve da doença com presença
de teste do suor normal. Realizou-se estudo mostrando dois pacientes com genótipo heterozigoto
da FC ∆F 508/3849 + 10Kb C *T que apresentavam valores de cloro no suor dentro da normalidade,
ausência de insuficiência pancreática, e quadro clínico de doença
pulmonar obstrutiva crônica, bronquiectasias e infecções recorrentes por
Pseudomonas aeruginosa. Utilizou-se voltagem nasal transepitelial e genotipagem para
confirmação diagnóstica de ambos os casos27.
A mutação 3849 + 10 kb C*T é encontrada numa freqüência
de 1,4%. O mecanismo molecular responsável pela produção normal de cloro
no suor e manifestações leves da doença nesses casos é desconhecido27.
Existem variações fisiológicas nos diversos períodos
etários que devem ser levados em conta no momento de avaliar o resultado do exame. Nos
dois ou três primeiros dias de vida, os valores são habitualmente elevados (em
torno de 75 - 80 mmol/L) caindo para níveis normais a partir do terceiro ou quarto dia
de vida que permanecem estáveis por toda infância havendo um aumento gradual a
partir dos 15 anos de vida2.
O teste do suor pode ser falso-positivo nas seguintes situações:
insuficiência supra renal não tratada; displasia ectodérmica; hipoparatireoidismo;
diabetes insípido nefrogênico; deficiência de glicose 6-fosfatase; síndrome
nefrótica; doença de Von Gierke; fucosidose; colestase familiar; pseudo hipo
aldosteronismo; hipotireoidismo e mucopolissacaridose. Existem dados contraditórios
na literatura quanto à interpretação da desnutrição protéico
calórica como a causadora de teste de suor falso-positivo em paciente com desnutrição
sem edema - tipo marasmático. A concentração de eletrólitos no
suor está estatisticamente mais elevada do que nos eutróficos, entretanto os
níveis de cloro não atingem a faixa de diagnóstico, sendo inferiores a
60 mmol/L1, 2,5,27.
Diagnóstico pré-natal
O diagnóstico pré-natal da fibrose cística pode ser conseguido
de duas maneiras: a primeira seria através de biópsia da vilosidade coriônica
com subseqüente análise genética do material biopsiado no feto aproximadamente
na 12a semana de gestação8.
A outra técnica seria realizada para se evitar uma segunda gestação
de feto fibrocístico: faz-se uma indução de ovulação múltipla
com coleta de vários óvulos para inseminação artificial extra-uterina.
Na fase de mórula é feita uma micro punção biópsia celular
com aspiração do material genético dessa célula e uma análise
para identificar a presença de mutação da FC. Dessa maneira, pode-se selecionar
o ovo fecundado sem a FC, que será reimplantado no útero materno. Atualmente
é possível realizar o estudo cromossômico na região próxima
ao gene de FC e fazer mapeamento do DNA do paciente e dos pais através da técnica
de análise de polimorfismo de fragmentos restritos (restriction fragment length
polymorphism - RLPF)1,8.
A dosagem de isoenzimas da fosfatase alcalina, presentes no líquido
amniótico entre a 17a e a 19a semana de gestação
também permite verificar se o feto será doente ou não, com uma probabilidade
de 28:1 contra 1:4 anteriormente conhecida nas gestantes de alto risco8.
Triagem neonatal
O diagnóstico da FC tem sido feito tardiamente: média
de idade ao diagnóstico de 4,5 anos no Brasil e de 2,9 anos nos EEUU. Nesta época,
44% dos pacientes já se encontravam desnutridos1.
A idade média do diagnóstico de FC quando se usou triagem neonatal
foi de 9 semanas1.
É possível a detecção de FC logo após o
nascimento, em fase pré-sintomática, por meio da triagem neonatal (teste do pezinho)
na qual se dosa a tripsina-imune reativa (TIR). Os níveis elevados de TIR no sangue
do recém nascido refletiriam um certo grau de insuficiência pancreática.
Um teste anormal deve sempre ser confirmado pela repetição do exame ou
ainda pela busca da mutação mais freqüente na FC: a ∆F 508. Esse exame não
deve ser realizado após o 3˚ mês de vida1,8,29.
Os valores de referência são diferentes, dependendo do padrão
usado (valor de corte): 70 ng/ml ou 140 ng/ml. A dosagem de TIR apresenta sensibilidade
de 99,8%. Entretanto, pode apresentar um número razoável de testes falso-positivo
- quase 10%. A instituição da TIR para triagem neonatal de FC no Brasil acarretaria
um custo aproximado de quinze mil reais por paciente diagnosticado1.
Dentre outros testes de triagem neonatal temos o teste de mecônio (BM
- test meconium) e teste da tripsina fecal que medem, direta ou indiretamente,
a insuficiência pancreática. Podem apresentar falso-positivos e até 20%
de falso- negativos. O teste do mecônio é um método qualitativo para a
presença de albumina não digerida no mecônio, demonstrando insuficiência
pancreática 1,8.
Tratamento
Apesar do avanço no tratamento clínico e nutricional dos
últimos anos, os pacientes com FC continuam a apresentar uma incidência significante
de desnutrição e déficit de crescimento. A fundação da FC
dos EUA apontou que, em 1997, 24% dos pacientes encontravam-se abaixo do percentil 5 para peso
e 19% para estatura10.
A dieta para pacientes com FC deve ser livre, individualizada, hipercalórica
e hiperprotéica e com acréscimo de sal. Se o paciente não ingerir calorias
alimentares suficientes, deve-se indicar suplementos alimentares orais e, não havendo
resposta favorável, sonda nasogástrica para alimentação pode, algumas
vezes, aumentar o peso. Em pacientes em que essas medidas falham e esses não conseguem
ganhar peso adequadamente, há indicação de gastrostomia6,19.
Em relação ao valor calórico, é recomendada a
oferta de 50-100% de calorias acima das necessidades normais para a idade32.
Quanto ao conteúdo protéico, a ingestão deve ser duas a três vezes
maior que o normal: lactentes, 4g /kg/dia; crianças mais velhas, 3g/kg/dia; e adultos,
2-3g/kg/dia de proteínas. Para que a digestão seja mais fácil, pode ser
utilizada gordura de coco na preparação dos alimentos. Os triglicérides
de cadeia média são mal tolerados por seu paladar amargo, constituindo ainda
um complemento dietético relativamente caro, porém são uma terapêutica
útil para o melhor aporte de gorduras na dieta. Recomenda-
-se iniciar 1 ml/kg/dia, podendo chegar em 4ml/kg/dia nos lactentes, o que
permite enriquecer tanto as fórmulas como a alimentação complementar.
Deve ser utilizado cru31.
Os carboidratos devem representar 45-48% do valor calórico total, devendo
ser composto, majoritariamente, de açúcares complexos e fibra. Nos casos de insuficiência
respiratória grave, o excesso de hidratos de carbono pode levar à retenção
de gás carbônico e aumento da dificuldade respiratória. Os pacientes com
diabetes mellitus associado necessitam de uma administração cuidadosa
de carboidratos, preferencialmente complexos, ajustando-se à necessidade de insulina
aos requerimentos energéticos31.
É freqüente o déficit de ácidos graxos essenciais
(AGE) condicionado pela má absorção de gorduras, pela diminuição
da ingestão calórica e pela maior utilização dos ácidos
graxos poliinsaturados (PUFA) da dieta para produzir energia. Como tal deficiência ocorre
em crianças suficientes pancreáticas, acredita-se que haja um metabolismo aumentado
AGE, responsável pela maior liberação de ácido aracdônico
e pelo déficit progressivo de ácido linoleico. Estes últimos potencializariam
o defeito básico da FC. Recomenda-se alimentação rica em AGE, com 1-2%
do aporte calórico total sob a forma de ácido linoleico. A administração
de ácidos graxos ω3 pode ter efeitos benéficos, fundamentalmente ao nível
respiratório31.
A administração de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e
K) é obrigatória nos pacientes com insuficiência pancreática exócrina.
A ingestão de compostos vitamínicos lipossolúveis deve ser acompanhada
de alimentos com gordura e proporcional quantidade de enzima pancreática31,32.
Os preparados orais de enzimas de origem porcina, administrados antes e no
meio das refeições, conseguem suprir a falta enzimática, controlando satisfatoriamente
a má digestão e, conseqüentemente, a má absorção. Na
prática, as enzimas são progressivamente aumentadas até que a esteatorréia
seja reduzida, tornando as fezes consistentes1 ,2,5,8,31.
Na maioria dos pacientes, a insuficiência pancreática é
facilmente tratada pela reposição de enzimas, disponíveis em microesferas
encapsuladas para evitar destruição pelo ácido gástrico e liberar
as enzimas no intestino, onde o pH é propício para sua atividade. Entretanto,
sem a capacidade neutralizante do bicarbonato pancreático, as enzimas exógenas
nunca são completamente ativadas na FC porque atuam em pH sub-ótimo1.
A recomendação atual é realizar o cálculo da necessidade
de enzimas a partir da quantidade de gordura ingerida a cada refeição, preferencialmente
aos baseados apenas no peso corporal. Esse sistema de cálculo da dose leva em consideração
o fato de que a ingestão de gorduras em relação ao peso corporal é
alta nos lactentes e decresce gradativamente com a idade. Em média, as crianças
ingerem cerca de 5 gramas de gordura/kg/dia, enquanto nos adultos essa média é
de aproximadamente 2 gramas. Os cálculos são realizados tomando-se por base a
lipase. Em geral, os pacientes necessitam de 500 a 4000 unidades de lipase por grama de gordura
ingerida1,2,5,8,31.
Quando doses de 1000 a 2000 U de lipase/kg por refeição são
insuficientes para o controle dos sintomas, inibidores da secreção de ácido
gástrico - como os bloqueadores H2 - devem ser considerados, embora raramente a esteatorréia
seja completamente eliminada5.
As alterações hepáticas, principalmente a cirrose, com
hipertensão portal ou insuficiência hepática, associadas ou não,
aumentam a morbidade e a mortalidade da FC, piorando bastante seu prognóstico. Estudos
recentes mostram que o ácido ursodeoxicólico tem beneficiado os pacientes com
FC, melhorando seu estado nutricional e até mesmo normalizando os testes de função
hepática. A dose recomendada é de 15-20 mg/kg/dia, em quatro tomadas. O mecanismo
de ação sobre o estado nutricional não está bem esclarecido, podendo
estar relacionado com a melhora da função hepática e com o aumento do
pH intestinal devido ao maior teor de bicarbonato induzido pela colerese, ou ambos. A utilização
isolada do mesmo não está relacionada à diminuição da esteatorréia,
pois esta permanece inalterada nos pacientes que fazem seu uso30. A rifampicina
pode ser utilizada em caso de prurido na dose de 10 mg/kg/dia23. O octreotide (30
μg/ m2/hora IV) e a vassopressina (0,1-0,3 U/min IV) são indicados em casos de sangramento
varicoso.
Terapia gênica
Todas as estratégias atuais da terapia gênica da mucoviscidose
são orientadas no sentido da suplementação somática do gene. O
objetivo é a correção do defeito funcional das células somáticas
que expressam um fenótipo alterado num determinado paciente pela adição
de uma cópia da seqüência normal do gene. Os recentes ensaios da terapia
somática gênica da mucoviscidose centralizam-se, essencialmente, na correção
da doença pulmonar.
Nos testes preliminares com seres humanos, um gene normal da FC foi transferido
para dentro das células epiteliais nasais de pacientes com esta patologia, resultando
em função melhorada do canal de cloreto transmembrana, conforme avaliado por
um aumento na voltagem através do epitélio nasal. O adenovírus E1- deficiente
transfectante não parece replicar-se nem provocar outro efeito patológico além
da inflamação transitória associada às infecções
das células epiteliais nasais. Esses são resultados preliminares. No entanto,
a capacidade de induzir a condutância normal para o íon cloreto em células
das árvores brônquicas poderá estar logo ao nosso alcance. Como novas células
substituem as antigas no epitélio, seria necessário infectá-las com doses
renovadas de adenovírus5.
Conclusões
A FC, enfermidade genética de caráter autossômico recessivo,
até há pouco tempo apresentava elevado risco de vida nos primeiros anos de existência
de um indivíduo afetado por essa doença. Atualmente, a partir dos vastos conhecimentos
adquiridos ao longo dos anos no que diz respeito às alterações genéticas,
a metodologia diagnóstica e as propostas terapêuticas modernas têm propiciado
um prolongamento significativo da vida quando essas medidas são criteriosamente utilizadas.
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